António Costa, o primeiro-ministro, o homem em quem por estes dias o espanhol Pedro Sánchez se inspira, por ter conseguido formar em 2015 um governo socialista com o apoio parlamentar da esquerda, comunistas e Bloco de Esquerda (partido irmão do Podemos) partia para estas eleições europeias com alguma apreensão.

Apesar das sondagens terem favorecido continuamente os socialistas nos últimos anos, a verdade é que à medida que as europeias se estavam a aproximar as possibilidades de sucesso do PS, o Partido Socialista, parecia estar a diminuir.

Alguns estudos de opinião chegaram mesmo a avançar com um empate técnico entre o PS e o PSD, formação política que integra o Partido Popular Europeu e que esteve no governo até 2015. O facto de Paulo Rangel, que é um combativo e experiente político, ser o cabeça de lista do PSD ao Parlamento Europeu poderia explicar a aproximação. Mas não só: o ano foi duro para o Governo, com greves e manifestações de quase todas as classes profissionais.

E pouco antes da pré-campanha para as europeias rebentou “o caso das famílias” onde se ficou a saber que havia muitos parentes directos de membros do Governo e de deputados socialistas nos gabinetes de apoio ao Governo. O caso levou à demissão no princípio de Abril de um secretário de Estado do Ambiente, que tinha nomeado um primo para seu adjunto. A imagem dos socialistas junto da opinião pública ficou afectada com a profusão de notícias sobre ligações familiares e o nº 1 da lista do PS, o ex-ministro das Infraestruturas Pedro Marques, foi mostrando que a sua experiência política ficava muito distante da do candidato do PSD. A campanha para as europeias não corria bem.

Mas tudo mudou no dia 2 de Maio, precisamente 24 dias antes das eleições europeias. Nessa quinta-feira, todos os partidos, com a excepção do PS, aprovaram – numa votação inicial, na comissão especializada – uma norma que obrigava o Governo a reconhecer aos professores o direito à progressão na carreira enquanto esteve congelada, exactamente como queriam os sindicatos. O Governo, que só aceitava devolver 1/3 do que pretendiam os sindicatos em nome do “rigor orçamental”, ameaçou demitir-se a 3 de Maio se a lei fosse aprovada em versão final global no plenário da Assembleia da República. A 5 de Maio, os dois partidos da direita, PSD e CDS, recuavam.

A campanha europeia já estava contaminada pelas eleições legislativas que se realizam no princípio de Outubro. Depois de toda a tensão à volta da demissão do Governo por causa daquilo a que chamava “orgia orçamental”, é difícil que exista tempo para debater muitos assuntos europeus, com a excepção do “rigor orçamental”, uma expressão que era habitualmente usada pelos partidos de direita e que depois da última semana transformou-se no principal slogan socialista. A verdade é que a direita teve uma grande derrota, ao perder o discurso das “boas contas” para o PS, a quem acusavam de ter conduzido o país à crise financeira.

Em Portugal, a questão dos imigrantes, polémica em boa parte da Europa, não existe. Mesmo assim, o candidato do CDS – o pequeno partido da direita que antes de 2015 esteve no Governo coligado com o PSD – tem tentado aludir ao assunto, eventualmente temendo a força, por enquanto desconhecida, do novo partido de extrema-direita, liderado por um antigo militante do PSD, André Ventura. Até agora, a extrema-direita não teve qualquer implantação em Portugal e as sondagens, por enquanto, não dão um resultado relevante para o novo partido. A dúvida é também se o novo partido de direita, “Aliança”, criado por um ex-primeiro-ministro do PSD, Pedro Santana Lopes, conseguirá eleger algum deputado.

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