A Europa está em vias de mudança. A atual crise financeira terá tido o mérito de revelar as fraquezas do programa e tê-la-á feito avançar tão depressa nestes últimos meses como na década de 1980 e no início dos anos de 1990 com o impulso da troika de então: François Mitterrand, Helmut Kohl e Jacques Delors.

Um a um, foram caindo os dogmas fundadores de Maastricht. O euro deixou de ser sacrossanto. Agora, é possível pensar em abandoná-lo, temporaria ou definitivamente. O BCE ponderou essa hipótese controlando a inflação. Mas Jean-Claude Trichet não hesitou em ignorar a ortodoxia e adquirir milhares de dívidas soberanas dos Estados em dificuldade.

O pior é que, amanhã, a sua independência pode ficar comprometida. Há muitos meses que apelamos, com efeito, para a criação de uma estrutura europeia de governação económica. O nosso presidente, Herman Van Rompuy, está a trabalhar neste processo, pressionado pelos franceses, e prevê-se que apresente propostas no decurso da próxima cimeira europeia, dentro de duas semanas.

Durante este tempo, a Comissão Europeia de Durão Barroso, outrora símbolo do ideal federalista, brilha pela sua ausência nesta crise. As decisões são tomadas sem ela, mesmo que Durão Barroso tente retomar os assuntos, apropriando-se do processo dos títulos de dívida europeus, ou do processo da transformação do FEEF em Fundo Monetário Europeu. A possibilidade de um novo tratado, de uma Federação de Estados-nação, ou de uma Europa a duas ou três velocidades é posta com seriedade mesmo pelos mais "europeistas".

Está de volta a intergovernamentalidade. Os chefes de Estado estão no comando direto do navio europeu e levam, à frente, o dueto fundador franco-alemão. Infelizmente, este não funciona bem, como vimos nestes últimos meses. Tem uma visão uma vezes comunicante, outras responsável, raramente histórica. No entanto, existe agora a oportunidade de reinventar a Europa. É, inclusivamente, uma obrigação premente se quisermos evitar que a cimeira do G20 de novembro seja um desastre.