Rue de Rivoli, 59, em pleno centro de Paris. Um aglomerado de gente à frente deste edifício recentemente rebocado. Três anos após as obras de recuperação, a cargo da Câmara de Paris, proprietária desde 2002, a fachada extraordinariamente decorada da mais célebre “okupação” parisiense é substituída por uma qualquer frente haussmanniana. Só conseguimos ler a palavra “pós-okupação” à transparência. “Voltem daqui a seis meses para ver as mudanças”, assegura Gaspard Delanoë, presidente do colectivo 59 Rivoli, aos que acham o local demasiado convencional durante a cerimónia de inauguração. Mas este encontro do dia 9 de Setembro de 2009 marca o fim de dez anos de luta. Depois de três anos em Belleville, “os ‘okupas’ estão de volta”, lembra uma bandeirola.

Em Paris, as rendas são baratas

Okupas”? O termo foi mal escolhido. A Câmara arrendou o local a um colectivo de artistas, por 130 euros mensais, à semelhança de muitos outros locais criativos parisienses. Com uma diferença realçada por uns quantos: “Não somos ‘okupas’", esclarecem os artistas de Frigo, instalados no 13.º arrondissement da capital francesa. "Somos inquilinos da Câmara de Paris.

Interdependência entre "okupas"

Os tempos mudam. Temos de ser capazes de evoluir", lembra um artista do 59 Rivoli, enrolando um cigarro. "Ser underground é ilegal, por isso tornámo-nos alternativos.“ Embora esta evolução seja artisticamente positiva, os locais estão vedados ao público. É impensável ir lá e tomar um café ou beber uma cerveja fora do horário das exposições. Ao contrário de outros conceitos mais acessíveis e mais participativos, como é o caso de La Suite, no 13º arrondissement, onde o Syndicat des Grooms acolhe ateliês e boas ideias de todo o tipo.

A luta dos “okupas” continua. “Existimos graças a uma ‘okupação’ na Bolsa, actualmente encerrada”, considera o artista, enquanto fuma o seu cigarro. "E La Suite existe, em parte, graças à nossa luta.“ Os “okupas” dependem uns dos outros. E, quando um é ameaçado, a comunidade corre em seu auxílio. “Vamos continuar a ‘okupar’ e a procurar imóveis desocupados para criarmos ‘colmeias de arte’ por todo o lado”, assegura Gaspard Delanoë. “A reabertura do nº 59 da Rue de Rivoli é uma esperança para todos os artistas.

Berlim – deteriorados, mas ordenados

Em 20 anos, a cidade de Berlim deixou de incomodar… para se arranjar progressivamente. Nos anos 1980, as autoridades alemãs dedicavam-se a problemas mais sérios do que as “okupações” e os jovens berlinenses aproveitaram para generalizar a sua prática. Berlim é o terreno propício para a abertura de 160 “okupações”. Agora, a Câmara compra e arrenda a baixo preço. Como em Amesterdão. Nas caves ou nos pátios, as comunidades continuam a reunir-se em locais com uma forte dimensão identitária. É o caso dos punks do Köpi, com bar, sala de concertos e cinema.

Teatro, ateliÊs, pintura, escultura. A cultura “okupa” espaços urbanos alternativos. A partir dos anos 90, o Tacheles abriga artistas “deslocados”. Este local, símbolo da cultura off, tornou-se uma atracção turística incontornável. 300 mil visitantes por ano, para deleite dos artistas que pagam pela galeria uma renda de 180 euros por mês, com cerveja e quadros sempre a sair em locais cobertos de grafitti e ordenadamente deteriorados, até se converterem em verdadeiros espaços que atraem o visitante. A Cassiopeia, na zona leste da capital alemã, alberga um parque de skates e uma parede para escalada, com entrada paga.

Sevilha – a “fábrica de chapéus” despejada

Esta alteração de contrato não se aplica a todos. Em Sevilha, a Casa Vieja já suscitara a cólera dos apoiantes de locais alternativos. Depois de habitada, foi vendida a uma agência imobiliária. A antiga Fabrica de sombreros abriu as portas, em Abril de 2008, com ideias, pinturas, reuniões semanais, exposições, num local a fervilhar de iniciativas: desde aulas de capoeira, às segundas, passando por sessões de cinema temático, às terças, até aos encontros gastronómicos dos sábados. Em Junho de 2009, a polícia foi chamada para despejar os inquilinos. Estão em curso conversações entre a agência imobiliária, o município camarário e os actores do espaço cultural.

Roma – encontro de lugares alternativos

"Okupado" desde 1986, o Forte Prenestino, em Roma, acolhe, nos próximos dias 16, 17 e 18 de Outubro, o primeiro encontro europeu de locais alternativos de vida e criação. À margem das instituições, a cultura urbana ganha também uma dimensão europeia que lhe permite reinventar a noção de “okup-arte” e lutar em conjunto por uma cultura afastada dos caminhos triviais.

Caroline Venaille