Não foi nada divertido para um italiano assistir à conferência de imprensa conjunta, realizada ontem em Bruxelas, com Angela Merkel e Nicolas Sarkozy. Durante todo o encontro entre a chanceler alemã e o Presidente francês com a imprensa internacional, o chefe do nosso Governo, Silvio Berlusconi, que, agrade ou não ao estrangeiro, nos representa a todos nós, italianos, foi gozado e apontado a dedo por não ter conseguido fazer adotar medidas nacionais contra a crise das dívidas soberanas.

Posto tacitamente no mesmo plano que a Grécia (Sarkozy enumerou, numa lista separada, a Irlanda, Portugal e a Espanha), só foi aceite com reticências como interlocutor (e somente a este título considerado digno de confiança pela chanceler).

Se tivermos em conta que, no Conselho Europeu, a linguagem diplomática e a moderação de comportamentos são habitualmente a regra, é fácil de compreender por que motivo a França e a Alemanha — cujo papel é certamente decisivo para não se perder o pé face ao tsunami do euro — conseguiram irritar uma boa parte dos seus parceiros europeus.

Berlusconi compromete operação de resgate

Mas, depois de apontarem os excessos de Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, não se interrogam se eles tinham razão e até que ponto? O Governo de Berlusconi está de facto enfraquecido e não levou a Bruxelas o decreto-lei sobre o desenvolvimento que há muito deveria ter promulgado.

Por inércia, Silvio Berlusconi põe em risco toda a operação de resgate que será posta em prática a 26 de outubro, quarta-feira. E os conselhos que o Conselho Europeu fez chegar a Roma a propósito dos cortes orçamentais não surtiram, até ao momento, qualquer efeito. Mas Sarkozy repetiu-os ontem: quem não assumir a sua parte da responsabilidade não pode aspirar a uma solidariedade do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF).

Ainda que exagerada e devidamente encenada, a irritação franco-alemã teve, pois, boas razões para se manifestar. Diríamos mesmo que em termos mais suaves são muitos os parceiros europeus que a partilham. E reside aqui, evidentemente, o ponto mais grave em relação ao qual o Governo italiano devia, se possível, dedicar a sua atenção, mesmo que tardia.

A decisão final que, desta vez, abrange o conjunto dos países europeus, é esperada a 26 de outubro e esta pressa explica certamente o paradoxo dos trabalhos da cimeira de 23: nunca tínhamos visto tanto otimismo numa cimeira que corresse tão mal.

Mas não ao ponto de transformar a batalha do euro numa guerra fratricida e impedir que os acordos necessários sejam concluídos na próxima quarta-feira, mas suficientemente mal para deixar chegar ao mais alto nível o objetivo político, para “obrigar” Angela Merkel e Nicolas Sarkozy a encontrar um acordo que, ao colmatar a crise, os salve da ignomínia. Porque são eles, a chanceler alemã e o Presidente francês, que tomaram a iniciativa de uma maratona tão cerrada de encontros e negociações sob pressão.

Os coveiros do euro e da Europa

E são eles que, chegada a vigésima quinta hora, têm de constatar com bondade um interesse político comum: o de não fracassar, de não serem os coveiros do euro e da Europa, de não transformarem em boomerang a responsabilidade de guia que as duas “locomotivas” quiseram assumir. Não é por acaso que, ontem, Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, entre dois ataques a Berlusconi, declararam quase certa a realização de alianças “comuns, ambiciosas e duradouras” que pretendem apresentar no G-20 de Cannes nos primeiros dias de novembro.

É salutar que, na frente interna de um e de outro país e no interesse geral da zona euro, Angela Merkel e Nicolas Sarkozy se encontrem encostados à parede e com as horas contadas, à beira do abismo para o qual a Europa muitas vezes quis saltar para encontrar a força de se afastar.

Resta verificar, bem entendido, a eficácia da fórmula que Berlim e Paris vão escolher, em particular, para aumentar o "poder das chamas” do FEEF. Os bancos não se alegram com a ideia de duplicar, no mínimo, apesar das recapitalizações, os prejuízos sobre as obrigações do tesouro grego. Resta saber — e, aqui, as preocupações atingem a Itália — se estas medidas vão realmente suscitar a confiança necessária para vencer.

Seja qual for o assunto, é evidente que o defeito prolongado de reatividade perante a crise, incluindo alemães e franceses, continua a ser a questão da ausência na Europa de chefes de Estado verdadeiramente capazes de guiar e convencer. O encontro de quarta-feira irá assim marcar o início do caminho e não o seu fim. No G-20, vai tratar-se de fazer aprovar a taxa sobre transações financeiras, asseguram, em uníssono, Angela Merkel e Nicolas Sarkozy. E a Europa vai lançar-se sobre um novo projeto de governação comum. Algo que poderá encher de alegria os europeus mais convictos.

Mas atenção! A união fiscal que a senhora Merkel tem em mente é um sistema que controla antecipadamente as finanças de cada Estado-membro da zona euro e confia a um futuro organismo de Bruxelas a tarefa de anunciar sanções automáticas em caso de violação, mesmo que mínimas, das regras aprovadas por todos. Não será fácil alterar os tratados, mas eis a Itália prevenida.