Antek não tem a certeza se deve sequer estar a falar comigo. Repetiu-mo três vezes em meia hora. "Fazes parte do sistema e eu, basicamente, lixo o sistema", e encolhe os ombros. De casaco preto com capuz e ténis, Antek não parece um hooligan. Magro e pálido, acende um cigarro atrás do outro. É anarquista e apoia um grupo radical de esquerda chamado Antifa.

Então porque há de falar comigo um tipo da imprensa institucional? "Topa, pode achar que é apenas um jogo de manifestação e contramanifestação. Claro, os encontros, os protestos, o apoio de celebridades e as faixas coloridas são importantes para educar o público. Mas os fascistas não ligam pevide às faixas. A única coisa de que podem ter medo é de nós. Portanto, deixemo-los ouvir falar de nós."

A chamada Marcha da Independência, organizada por grupos de nacionalistas e de direita a cada dia 11 de novembro, deve assumir proporções inauditas este ano. Os organizadores esperam acrescentar aos seis “uns” da data do evento mais dois, e assim espelhar o número de milhares de participantes. Mas não são só eles que se estão a mobilizar. Os adversários da marcha uniram forças, pelo segundo ano consecutivo, e criaram a Aliança do 11 de novembro, de organizações de esquerda. Dizem que os nacionalistas são, na verdade, fascistas e que a marcha tem que ser detida. Este ano, pela primeira vez, vão ser apoiados por um grande número de esquerdistas e anarquistas de toda a Europa.

Anarquistas de todo o mundo, uni-vos

O website da Aliança tem textos em Inglês e Alemão, com a Siempre Antifascista e a Antifascist Left Berlin, organizações alemãs consideradas extremistas e violentas, a apelarem ao apoio para a ação contra a marcha. Em Berlim, Estugarda, Rostock e várias outras cidades alemãs, os anarquistas organizaram concentrações informativas sob o lema "Vamos bloquear a marcha nazi em Varsóvia".

Os extremistas de esquerda alemães prometem uma repetição de Dresda, onde os seus confrontos com neonazis no aniversário dos bombardeamentos da cidade pelos Aliados se tornaram há vários anos os maiores motins de rua na Alemanha. Há um ano, mais de 10 mil pessoas estiveram do lado dos anarquistas e várias centenas ficaram feridas, de ambos os lados da barricada.

A Alemanha é o bastião dos anarquistas europeus. Mas os antifascistas polacos estão a contar sobretudo com combatentes do Leste. Os anarquistas da Ucrânia, Bielorrússia e Rússia são considerados os combatentes mais duros, porque o seu dia a dia é dar luta aos extremistas de direita, que nesses países operam mais como organizações terroristas do que como bandos de rufias de bairro.

Além deles, esperam-se em Varsóvia grupos anarquistas da Holanda, Espanha, Sérvia, República Checa e Eslováquia. Os anarquistas são provavelmente hoje a internacional mais bem organizada do mundo.

Hooligans Antifa

Durante muitos anos, a ideia de grupos extremistas na Polónia trazia antes de mais à ideia a extrema-direita. Mas o bloqueio do ano passado à Marcha da Independência de novembro mostrou que os extremistas de esquerda estão cada vez mais bem organizados e são tão perigosos como os seus adversários de direita.

As suas atividades estão agora a ser vigiadas pela Agência de Segurança Interna (ABW), o que não é minimamente surpreendente, uma vez que, nos seus próprios sites de Internet, se proclamam abertamente radicais à procura de confrontação física e ideológica com a extrema-direita. Os grupos mais ativos autointitulam-se “Hooligans Antifa”. Como compete aos anarquistas, não têm hierarquia, nem estruturas, nem líderes.

Ideias, porém, são algo que certamente não lhes falta: teorias revolucionárias e socialistas à mistura com postulados anarquistas, hip-hop com punk-rock, e botas cardadas de skinheads com tranças rasta. Juntam habitantes de grandes e de pequenas cidades. Estudantes, desempregados, operários. Embora sejam seguramente mais os ocupas do que os diretores de empresa. Praticamente qualquer pessoa pode participar nos Antifa, desde que se oponha ao fascismo e aceite a regra básica do movimento: não colaboração com a polícia e com os partidos políticos. Como sabemos, eles são parte do sistema.

Guerra de guerrilhas

Nas suas atividades, não há regras. O que importa é o objetivo. "Os ultra direitistas não têm escrúpulos, atacando qualquer um que não se encaixe na sua imagem de ‘verdadeiro polaco’. Assim, aceitamos todos os meios que possam mudar isso. Distribuir flores não vai curar ninguém do fascismo", argumenta um membro do Antifa conhecido por “Rot” [Vermelho].

Na verdade, não se trata de converter adversários ideológicos. Ninguém nos Antifa, diz o 'Rot', tem quaisquer ilusões de que um fascista que leve pancada venha a ter uma revelação e de repente passe a gostar de homossexuais, imigrantes ou judeus. O intuito é fazê-lo ter medo. Fazê-lo sentir que existem pessoas no seu encalço, que são radicais e extremamente determinadas. Como acontece frequentemente nas guerras, o conflito ideológico original torna-se rapidamente marginal. Ninguém se lembra já dos nobres postulados e ideais sublimes. O que fica é a luta.

Ódio banal

Antek diz que já na escola primária era anarquista. Os concertos de punk-rock que frequentava eram quase sempre invadidos por skinheads. Pedras, garrafas, caixotes do lixo, ia tudo pelo ar. Mas as pessoas cerravam fileiras ombro a ombro. Antek também. Partiram-lhe duas vezes a cabeça, um braço e perdeu três dentes. Mas nunca mais teve de fugir.

"O Antifa faz-te sentir capaz de criar uma resistência real. Agir em vez de avançar para os fascistas com uma garrafa de cerveja.” E acrescenta que, se dependesse dele, eliminava-os de uma vez por todas. O mundo tornar-se-ia, finalmente, tolerante e todos poderiam ser como são, sem medo. Se isso é fascismo? Antek abana a mão num sinal de desprezo. É apenas um ódio banal.