A visita de Estado de Václav Klaus à Rússia ocorreu apenas alguns dias depois do tumulto provocado na Europa pela nova condição que este pôs para dar o aval ao Tratado de Lisboa. Václav Klaus confessou aos seus anfitriões que "não estava muito preocupado com o reforço da integração europeia".

Klaus é um dos políticos checos que não têm medo de manifestar abertamente a sua orientação pró-russa, ao contrário, por exemplo, do Governo de direita de Mirek Topolánek [derrubado em Abril passado] que apostava sobretudo no reforço dos laços com os Estados Unidos.

Assim, por ocasião de uma viagem aos Estados Unidos, em Setembro, Klaus disse que, para a República Checa, Moscovo representava uma ameaça bem menor do que uma União Europeia com excesso de regulamentação. "Ao longo de dois milénios de história, nunca a Rússia teve um sistema político tão bom e nunca o princípio da liberdade foi tão respeitado", declarou, entre outras coisas, numa entrevista recente, publicada pelo Washington Times [diário próximo dos neo-conservadores norte-americanos].

O menino bonito dos jornalistas russos

Quando era primeiro-ministro [de 1992 a 1997], Václav Klaus manteve, de um modo geral, uma linha pró-ocidental. Só depois de ter abandonado o poder executivo começou a formular mais explicitamente críticas sobre a integração europeia e sobre os Estados Unidos. Esta mudança de orientação foi confirmada pelas reservas que exprimiu acerca dos bombardeamentos da NATO na Jugoslávia, em 1999.

Foi também por essa época que os medias russos começaram a interessar-se por ele. Hoje, são os jornalistas russos quem faz a promoção de Klaus. O lugar que este ocupa nos medias russos é bem mais destacado do que o ocupado por todos os outros chefes de Estado da Europa Central. As suas tomadas de posição sobre a "russofobia gratuita" são sobretudo apreciadas pelos jornalistas favoráveis ao Kremlin. Por seu turno, num artigo recente sobre a crise da integração europeia, Mikhail Deliaguin, politólogo moscovita de renome, incluiu uma alegada citação de Klaus, na qual este afirmaria que, para a República Checa, a adesão à União Europeia representou um empobrecimento financeiro.

"Em muitos aspectos, Václav Klaus é um homem do passado. Pertence à época ultrapassada da divisão bipolar do mundo. Como não conseguiu conquistar um lugar a Ocidente, um espaço político ocupado por Václav Havel, voltou-se logicamente para a Rússia", observa o politólogo Michael Romancov, professor da Universidade Metropolitana de Praga.

Apesar da popularidade de que goza entre os medias russos, os dirigentes do Kremlin não deixam, por vezes, de lhe recordar qual é o seu lugar no mundo da política. Durante uma visita anterior à Rússia, Klaus quis garantir a Vladimir Putin que o radar anti-míssil norte-americano não seria apontado para a Rússia. O Presidente russo limitou-se a desatar a rir e respondeu: "Seja como for, o senhor nunca irá ter nenhuma influência nesse assunto." Estas palavras causaram notoriamente um certo embaraço do Presidente checo.

Visitas bastante raras ao Ocidente

Dmitri Medvedev foi sem dúvida o chefe de Estado mais importante a convidar Klaus, após a reeleição deste. Em contrapartida, Klaus só excepcionalmente é recebido, em visita de Estado, pelos seus homólogos ocidentais. "Em parte, a explicação disso é a hiperactividade de que ele deu mostras, depois da sua primeira eleição. Então, visitou vários países. Ora, em muitos deles, é preciso esperar alguns anos até se ser novamente convidado.

É evidente que há outra razão. Hoje, os chefes de Estado deixaram de o convidar por causa das suas tomadas de posição acerca de integração europeia", explica o chefe do Partido Popular e antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, Cyril Svoboda. A Irlanda foi um dos raros países ocidentais a receber Klaus, em visita oficial, após a sua reeleição. Mas este conseguiu zangar-se com os políticos irlandeses, depois de ter apoiado abertamente o movimento dos adversários do Tratado de Lisboa de Declan Ganley.

Klaus tem relações especialmente tensas com o seu homólogo francês, Nicolas Sarkozy. Os dois chefes de Estado digladiam-se regularmente através dos medias. Assim, em Dezembro do ano passado, Klaus acusou indirectamente Sarkozy de prejudicar a União Europeia. No ano passado, Klaus foi duas vezes a França mas não se encontrou com nenhum dirigente político.