Em 1999, na Feira Internacional do Livro de Frankfurt, a tribuna com a inscrição “Grupo 99” suscitou o espanto dos visitantes. Sob esta insígnia, apareciam juntos os escritores da ex-Jugoslávia. Dez anos depois, os bombeiros dos dois lados da fronteira apagam incêndios juntos e os empresários fazem negócios transfronteiriços. Será um renascimento da Jugoslávia? Ou pelo menos uma Jugonostalgia? Para muitos, a guerra na Jugoslávia significou não apenas a perda de parentes ou do lar, mas também uma perda de identidade. Foi o caso das pessoas que se qualificavam como “jugoslavas” no início dos anos 90, o que não era raro à época.

Eram sobretudo provenientes de casais mistos, mestiços, que tinham mais dificuldade em encontrar o seu lugar nas novas fronteiras. Parte delas escolheu a imigração. A famosa escritora e ensaísta búlgaro-croata Dubravka Ugresic é o exemplo clássico. Execrada como “a bruxa de Zagreb” pela sua crítica ao nacionalismo do primeiro Presidente da Croácia, Franjo Tudjman, rapidamente foi posta à margem da vida social croata. Depois de ter passado por numerosas contrariedades, deixou finalmente o país e dá aulas há vários anos em Amesterdão.

Tito goza ainda de popularidade

A noção de “Jugonostalgia”, lançada por Dubravka Ugresic e entendida de forma negativa em meados dos anos 90, goza hoje de uma certa popularidade. A moda da Jugonostalgia é visível em todas as ex-repúblicas. Nas paredes dos bairros de Belgrado, pode ler-se: “Tito volta, estás perdoado”, ainda que não seja na Sérvia, mas na Bósnia-Herzegovina, onde o amor pelo marechal é maior. Nos últimos anos, foram realizados na região nada menos de três filmes sobre Tito, dois sérvios e um croata. A cicatrização das feridas e dos danos da guerra levará certamente muitos anos.

Mas assiste-se já hoje a uma multiplicação de gestos políticos que podem favorecer este processo reparador. É o caso das palavras do Presidente sérvio, Boris Tadic, que pediu perdão aos croatas pelos crimes de guerra. A Sérvia expressou igualmente o mesmo pedido pelos crimes na Bósnia-Herzegovina. A reconciliação também é favorecida pela cooperação com o Tribunal Penal International de Haia. Entregando os seus criminosos de guerra, frequentemente considerados heróis nos países respectivos (por exemplo, o general croata Ante Gotovina, ou o ex-Presidente sérvio Slobodan Milosevic), Belgrado, Zagreb e Sarajevo superam os obstáculos no caminho para a reconciliação.

"É preciso cooperar"

A cooperação entre Belgrado e Zagreb é cada vez mais intensa, e o mesmo se passa, desde há algum tempo, entre a Sérvia e a Macedónia. Mesmo a secessão do Montenegro não enfraqueceu as tradicionais relações entre Belgrado e Podgorica. Entre os países da ex-Jugoslávia, as relações mais conflituosas, centradas na questão transfronteiriça, são as que dividem a Croácia da Eslovénia, que bloquearam as negociações sobre a adesão de Zagreb a Bruxelas. Aquando das entrevistas bilaterais com os líderes da região, os diplomatas europeus afirmaram claramente: “Têm de cooperar”. Sem isso, o acesso à União não será possível.

Em contrapartida, no domínio cultural tudo é já possível. Mesmo no tempo dos horrores e das devastações da guerra, os habitantes da ex-Jugoslávia ouviam a mesma música. Svetlana "Ceca" Ražnatović, uma super-estrela sérvia do turbofolk (um misto de motivos musicais explosivos dos Balcãs) – na vida privada, viúva do criminoso de guerra Zeljko “Arkan” Raznatovic –, é o exemplo mais curioso desta tendência. Na Bósnia-Herzegovina, centenas de milhares de discos seus foram vendidos, no momento em que a milícia de Arkan cometia as piores atrocidades.

Ex-Jugoslavos juntos à mesa

Goran Bregović é outro símbolo, bastante menos controverso, desta reconciliação. Nascido em Sarajevo, este semicroata, semisérvio (casado com uma muçulmana bósnia) foi, durante os anos gloriosos da Jugoslávia, líder do famoso grupo Bijelo Dugme (botão branco). Há alguns anos, os músicos voltaram a juntar-se e efectuaram uma digressão triunfal por todas as ex-repúblicas.

Também o festival cultural EXIT, de Novi Sad, na Sérvia, reúne todos os anos milhares de jovens de toda a ex-Jugoslávia. Mas é no estrangeiro que esta familiaridade é mais visível. Em Bruxelas, Paris ou Varsóvia, os restaurantes balcânicos reúnem todos os ex-jugoslavos. Nas conferências de imprensa de Bruxelas, os jornalistas dos países da antiga Jugoslávia mantêm-se sempre juntos. Mesmo que ainda pareça um tanto hipotético, o caminho para a reconciliação “ex-jugoslava” passa pela Europa.