O ano de 2011 tem tudo para ficar na História como um ano desastroso. Entre outras coisas, porque os Estados Unidos e a Europa estão risco de sucumbir sob o peso das respetivas dívidas. Neste momento, têm a reputação de maus alunos da economia mundial e recebem lições dos capitalistas de Estado da China, de diplomatas de Singapura e de economistas da Índia. Por conseguinte, não é de espantar que muitos observadores sensíveis ao sentimento dominante anunciem o fim de quatro séculos de domínio ocidental e vejam o Sol erguer-se no Extremo Oriente.

Aliás, o comportamento do Presidente norte-americano vai nesse sentido: considera que os Estados Unidos devem pôr em ordem a economia nacional, antes de se lançarem em novas intervenções no estrangeiro. Quando até o homem mais poderoso do mundo considera que Washington colocou a fasquia demasiado alta, temos tendência a concordar com o historiador Paul Kennedy (que escreveu sobre o assunto na sua obra Ascensão e Queda das Grandes Potências, de 1987), quando este diz que a América sofre de "sobrextensão imperial".

Experimentar e inovar

Contudo, a profecia de Kennedy foi feita pouco antes do fim da Guerra Fria. Kennedy não só não antecipou o progresso da democracia a nível mundial como falhou em se aperceber da queda do comunismo soviético que se desenrolava diante dos seus olhos. Seria de pensar que, depois de esses acontecimentos se verificarem, Kennedy se mostraria um pouco mais reservado. Mas não: continua a pensar que o Ocidente se encontra num momento histórico "decisivo", em que o seu domínio está a chegar ao fim, de forma quase impercetível.

Kennedy é um historiador para quem os fatores económicos são os fatores fundamentais e que dá pouco valor à força das ideias e dos "grandes homens". A verdade é que esses não são os melhores critérios para se avaliar o declínio a nível mundial. É muito mais importante ver como os sistemas políticos reagem em períodos de crise e como fazem frente a desafios que até então nunca tinham sido enfrentados.

Se os dirigentes soviéticos não se tivessem dado por vencidos, nos anos 1980, o Muro de Berlim ainda poderia estar de pé. Se, em 1980, Ronald Reagan e Margaret Thatcher não tivessem resistido à crescente influência soviética, talvez o Kremlin se tivesse mantido apegado à sua política de força. Por que motivo os reformadores políticos de Moscovo cederam e os reformadores políticos de Pequim não cederam continuará sempre a ser tema de especulação histórica. No entanto, o que aconteceu mostra que forças não quantificáveis, como a determinação e a fé na causa que se defende, podem desempenhar um papel decisivo.

No que se refere a experimentar e inovar, é ainda demasiado cedo para se riscar a Europa. Nenhum outro continente viveu uma transformação transnacional tão radical como a decorrente da introdução do euro e do alargamento da UE à Europa de Leste, na última década. É absolutamente natural que essa transformação tenha falhas e seja posta à prova. Portanto, continua a ser um feito o facto de o euro ter sido introduzido de acordo com o plano estabelecido e o facto de, apesar do complexo problema da dívida, cuja amplitude poucos tinham previsto, a zona euro não se ter desintegrado até agora. Isso demonstra que a Europa detém um poder político muito mais forte do que aquele que, em geral, se lhe atribui.

Economia mundial modelada pelas ideias ocidentais

Devido ao labirinto de ligações de ordem financeira, a crise atual está a levar (ainda que não intencionalmente) a uma solidariedade europeia sem precedentes, que será difícil inverter. Os dirigentes europeus, incluindo Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, e o Banco Central Europeu estão a dar mostras de uma impressionante capacidade de aprender, à medida que vão abrindo caminho por áreas ainda inexploradas. Se os órgãos de informação encaram as coisas de um modo diferente, isso acontece porque os pontos que marcam dão o tom ao debate e criticar duramente os políticos é habitual para eles. Penso, contudo, que só é possível avaliar a capacidade dos políticos quando estes têm os pés enterrados na lama, como acontece neste momento.

É evidente que muitas coisas podem correr mal e que a cooperação atlântica já conheceu melhores dias. Mas, no Oriente, não existem mecanismos de pacificação que se assemelhem aos europeus. E, ainda que a Ásia – que continua a ser atormentada por todo o tipo de catástrofes e que ainda não tem provas dadas em matéria de autonomia sustentável – tenha o futuro diante de si, esse futuro desenvolver-se-á no seio de uma economia mundial modelada pelas ideias ocidentais. Segundo esse ponto de vista, seria preciso ser-se realmente derrotista para se continuar a falar em declínio do Ocidente.