Para um arquicrítico das agências de notação de crédito, não era momento que se perdesse.

Mal a Standard & Poor`s (S&P) sugeriu uma possível descida da notação da zona euro, saltou logo Christian Noyer, a espumar. "As agências de notação alimentaram a crise em 2008 e podemos questionar-nos se não estão a fazer o mesmo na atual crise", declarou o governador do Banco de França.

Noyer, que acumula funções como membro do conselho de gerência do Banco Central Europeu, pode ter razões para protestar, mas, hoje, poucas organizações do mercado financeiro atraem o opróbrio da S&P, da Moody e da Fitch.

Com ou sem razão, as Três Grandes [agências de notação] têm uma reputação de inoperantes no mundo financeiro – do género de gritar "fogo" quando a casa já está a cair e, em seguida, para ajudar, mandar gasolina para cima.

Assim, argumentam os críticos, não só as agências não deram pela aproximação da crise de 2008, como ainda lhe mandaram combustível para cima, atribuindo notações de AAA aos próprios pacotes de hipotecas tóxicas que deitaram abaixo a economia mundial.

"Argumento de motivação política não colhe"

Agora, prossegue a acusação, também não deram pela crise da zona euro. E mais: precisamente quando Angela Merkel e Nicolas Sarkozy pareciam estar, finalmente, a entender-se, a S&P lançou nova granada. Para Noyer, a situação tomou um rumo mais sombrio. Insinuando uma gigantesca conspiração, acusou a S&P de mudar de "metodologia", estando agora "mais interessada em fatores políticos e menos nas questões essenciais".

"Disparate", é a resposta da S&P. Como assinalou Kathleen Brooks, diretora de investigação da Forex.com: "Os Estados Unidos não querem nem que a Europa vá por água abaixo nem que a crise da dívida cresça em espiral e se descontrole mais do que já está, muito menos num ano eleitoral. Da mesma forma, os chineses contam com a Europa para o seu crescimento, portanto o argumento de motivação política realmente não colhe."

Em vez disso, os críticos podem ter de chegar a uma conclusão mais desagradável. A de que, apesar dos seus defeitos, a S&P desta vez acertou. E não só. Apesar de poucos quererem acreditar, a agência até tem um historial melhor sobre a dívida na zona euro do que muitos profissionais do mercado financeiro.

Em primeiro lugar, a decisão de segunda-feira [5 de dezembro]. Claro que o momento foi uma provocação. Mas a S&P é descarada. A prioridade, diz, era avisar para uma potencial descida de notação em 15 das 17 nações da zona euro – incluindo a Alemanha –, antes do início da crucial cimeira da UE, na quinta-feira [8 de dezembro].

"Está a esgotar-se o tempo para uma solução política"

Respondendo aos críticos, na terça-feira, Moritz Kraemer, analista sénior da dívida na S&P, explicou: "Acreditamos que os riscos sistémicos da zona euro aumentaram significativamente nas últimas semanas e estamos preocupados com o impacto sobre a capacidade de crédito, se a cimeira não produzir uma resposta eficaz e credível. Com grandes montantes de dívida a terem de ser refinanciados no primeiro trimestre de 2012 e com a zona euro a entrar novamente em recessão no primeiro semestre, está a esgotar-se o tempo para uma solução política.”

A S&P citou cinco fatores entrecruzados para a sua atitude – "aperto das condições de crédito" nos bancos da zona euro; "prémios de risco mais elevados num número crescente de países da zona euro"; "discordâncias sistemáticas" entre os decisores políticos europeus; crescimento do endividamento dos governos e das famílias; e "risco crescente de recessão".

Não saiu nenhum melhoramento prático do bate-papo "Merkozy" de segunda-feira, nem um potencial alarido sobre uma maior união fiscal. A S&P também tem reservas razoáveis sobre o programa de reformas de Angela Merkel: "À medida que a economia europeia abranda, um processo de reformas com base num pilar de austeridade fiscal, isolado, arrisca-se a ser autodestrutivo.”

Nada disso devia surpreender os mercados financeiros. Nem a análise de que uma maior integração fiscal também vai deixar os países com notação AAA – Alemanha, França, Holanda, Finlândia, Luxemburgo e Áustria – presos aos mais perdulários.

Agências de notação podem piorar uma situação já má

Como Nicolas Veron apontou em outubro numa exposição para o círculo de análise Bruegel de Bruxelas, apesar das críticas de que as atuações de “rating” podem desencadear "mudanças negativas no consenso dos investidores... é pouco frequente que as descidas de classificação surpreendam os mercados – geralmente, eles preocupam-se em acompanhar o sentimento de degradação do mercado, e não em precedê-lo. Quando as agências fazem antecipações, muitas vezes os investidores não lhes ligam muito, como aconteceu quando a S&P começou a baixar a classificação da Grécia, em 2004”.

O que introduz o segundo ponto. A S&P baixou pela primeira vez a notação da Itália em julho de 2004, rapidamente seguida pela da Grécia e de Portugal. Naquela época, os mercados da dívida mal diferenciavam os riscos de crédito entre os membros da zona euro. É verdade que a S&P, como os seus principais rivais, foi muito lenta a detetar a grande crise. Mas, pelo menos inicialmente, antecipou-se aos mercados financeiros.

Uma crítica mais pertinente é que as agências de notação podem piorar uma situação já má. Como Veron assinalou, isso deve-se a que as referências a agências estão "integradas" em "disposições contratuais e regulamentares... Assim, apesar de as agências argumentarem que as suas classificações são meras opiniões... podem ter um efeito mecânico, se o resultado dessas previsões, por exemplo, resultar na venda forçada de ativos" – uma questão que o comissário europeu para os Mercados Financeiros, Michel Barnier, está a tentar resolver.

Na verdade, uma descida de notação por parte da S&P das nações cujos créditos tem em observação poria em perigo o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, o mecanismo de salvação da zona euro. A sua notação AAA depende de países com “ratings” semelhantes a apoiá-lo. Noyer não iria gostar. Mas isso não é problema da S&P.