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De um momento para o outro, do Canadá a Hong-Kong, a “gripe” está em toda a parte. A palavra invadiu as esferas política, mediática e científica, em menos de um espirro, e quase fazia esquecer essa outra, a tremenda “crise”… Felizmente, a devastação deste vírus não se compara ao da “gripe espanhola” do início do século XX, que dizimou muitos milhares de europeus. Hoje, a doença é relativamente corrente e os ingleses chamam-lhe, familiarmente, “flu”. Assim, em Inglaterra, quando apanham gripe, as pessoas já não vivem no pânico de “drop like flies” (cair como moscas), antes “come down with flu” (vão-se abaixo com a gripe). A origem da palavra remonta muito provavelmente a 1743, altura em que surgiu a primeira epidemia. “Flu” tem origem numa expressão italiana, “influenza di freddo” (influência do frio), que recorda o seu carácter sazonal.

Em França, sem razão aparente, insistem em “attraper la grippe” (apanhar uma gripe). E no entanto, há sempre uma boa razão para “prendre quelqu’un en grippe”(tomar alguém de ponta); acontece quando lhes chegam uns ecos de alemão, língua em que “grippe” significa “agarrar, apanhar depressa”. É um autêntico disparate gaulês: o francês apanha uma gripe e toma o alemão de ponta – quando ninguém fala de gripe alemã! E os portugueses caem no mesmo erro de correr atrás da gripe: apanhar a gripe, para quê?! Só não arriscam meter-se com os alemães – ainda se fossem os espanhóis, mas logo esses não usam gripe para mais nada senão para designar a doença propriamente dita… Resta relembrar, então, a tal “gripe espanhola”, a mais radical, a péssima, a que não tinha conserto. Como os motores – que gripam.

Os polacos são mais sensatos e dizem que “złapała mnie grypa”, uma maneira clara de pôr as coisas. Ah, sim, literalmente, a gripe apanha-os. Uma vez mais, os portugueses: desconfiados de que poderia haver uma forma mais correcta de analisar a situação, tomaram as suas precauções e criaram um verbo que os deixa fora de polémicas – engripam. Assim se resolve o problema, sem ter de tomar partido sobre quem apanha o quê ou o que apanha quem. Uns diplomatas natos, mesmo antes de saberem quão mediática a questão se poderia tornar!

Parecia tudo esclarecido e logo foram meter os porcos nisto. Deixaram os polacos embaraçados: “swiński” significa “porco”, evidentemente, mas permite igualmente gracejar com pornografia. Vista por esse prisma, a gripe destes ânus mais próximos (uops!) ganha contornos diferentes... Os alemães também podem ser induzidos em erro com a conotação porcina da gripe, dado que a expressão “Schwein gehabt” (ter um porco) é utilizada quando se é afortunado! Resta-lhes esperar pela gripe das vacas, para poderem tentar devolver-nos a gracinha…

Pierre-Anthony Canovas (adaptado)