Veja-se um francês de 40 anos: no dia 9 de Novembro de 1989, tinha 20 anos e acompanhava, emocionado, as imagens da queda do Muro de Berlim que desfilavam no ecrã da televisão. No mesmo momento, uma senhora polaca de 80 anos não acreditava nos seus olhos. Há 28 anos que aquele muro se erguia naquele sítio, fundido na paisagem.

O “zonis”, como lhes chamavam no Ocidente, as “pessoas da zona” puderam de repente atravessar o “Todesstreifen”, a “faixa da morte”, que os separava da ex-RFA. De repente, nunca mais se sentiriam constrangidos “au pied du mur”, como se diz em francês de pessoas que são obrigadas a agir: deixavam de ter de “faire le mur” [saltar o muro], de fugir arriscando a pele. Acabaram as negociações sem saída “muro contro muro”, como diriam os italianos. “Lottare contro un muro di gomma”: estar no meio da guerra surda entre o Leste e o Oeste, era como lutar contra um “muro de borracha”, dizem eles, ou seja, sem esperança de uma solução.

Tentemos imaginar a vida que tinham os alemães antes disso: comunicar com o Oeste era como “parler à un mur” [em italiano: “parlare con un muro”] ou, como dizem os polacos, “jak grochem o ścianę”, isto é, enviar pequenas ervilhas sobre o muro sem que ninguém reaja. Um infinito “muro de silêncio” para os alemães: “Mauer des Schweigens”, dizem quando não se consegue nada do interlocutor. “It' s like talking to a brick wall”: todos a falar para as paredes.

Felizmente, “between you, me and these four walls” [entre quatro paredes], trocavam-se alguns segredos que permitiam cruzar o arame farpado. Apesar de “les murs ont des oreilles” [“Walls have ears”em inglês e “ściany mają uszy”, em polaco – todos a dizerem o mesmo que os portugueses com as suas paredes com ouvidos], e apesar do perigo, em 9 de Novembro de 1989, ninguém ficou na sorna, faltando à grande festa no Oeste. Os alemães arriscaram e não quiseram ser “Mauerblümchen”, tímidas flores de muro… Comentam os polacos: “podpierać ścianę” – disfarçaram-se com o muro. Nesse dia, os ingleses perceberam bem que era preciso arriscar “going up a wall”, dar tudo por tudo, para não se ficar louco. Por toda a parte, a Europa irmanou-se no sentimento italiano de “fare muro”, isto é, de, em conjunto, fazer barreira e enfrentar os adversários!

O português tem seguramente uma herança cultural especial em matéria de construção civil, porque faz uma distinção clara na língua entre “muro”, “parede” e “muralha”, o que retira um pouco de familiaridade com as expressões europeias. Mas construções como essa de Berlim dos anos 1960 são claramente muros: muros de vergonha, atitudes falsamente defensivas, manifestações de prepotência, disposição para encurralar qualquer um e liquidá-lo pela força das armas! Levam vários meses a construir, caem num só dia…

Jane Mery