Numa altura em que a Irlanda põe em marcha um novo orçamento de austeridade e se prepara para mais um ano de sofrimento económico, um grupo de jovens ativistas começou a ocupar casas vazias geradas pelo crescimento desmedido e abandonadas por bancos e empreiteiros por todo o país.

Os ocupantes, ligados ao movimento Ocupar irlandês, dizem que planeiam uma ocupação em massa de moradias e apartamentos na posse do "bad bank" [banco incompetente] do Governo irlandês, a National Asset Management Agency (NAMA – organismo governamental criado em finais de 2009 para trocar dívida dos bancos por títulos saudáveis do Estado). Este organismo adquiriu milhares de propriedades aos especuladores, que se desfizeram delas na sequência do desastre económico.

Liderados por um jovem de 27 anos que se expressa em irlandês, formado na Universidade de Artes, Ciências Sociais e Estudos Celtas de Galway, o grupo ocupou uma casa na zona norte de Dublin, que valia 550 mil euros na fase áurea e que agora está avaliada em menos de 200 mil euros. Uma vez que a propriedade está vazia há vários anos, Liam Mac an Bháird e os amigos ocuparam-na no outono passado, para enfatizar a falta de alojamento, bem como a forma como construtores civis e bancos foram socorridos pelo contribuinte.

Há cerca de 400 mil prédios vazios, na República da Irlanda, e o Instituto Nacional de Análise Regional e Ordenamento Territorial (NIRSA) alerta para que o número de imóveis vagos pode manter baixos os preços da habitação por vários anos.

Seiscentas "propriedades-fantasma"

Mac an Bháird admite que o seu grupo está a infringir a lei, mas argumenta que estão a manifestar uma posição política importante. "Há milhares de pessoas sem abrigo no país, cerca de duas mil só nas ruas de Dublin, esta noite. Mas por toda a cidade existem milhares de apartamentos e moradias vazias – alguns podendo servir para a habitação humana. Tenho vindo a defender, dentro do movimento Ocupar, que precisamos de ocupar as casas do NAMA em Dublin, para revelar a injustiça de um sistema em que milhares de milhões de euros foram injetados nos bancos que deram tanto dinheiro a ganhar aos especuladores imobiliários", argumenta.

As cerca de 600 "propriedades-fantasma" construídas nos anos do Tigre Celta simbolizam agora a recessão irlandesa. O preço do salvamento de bancos que emprestaram rios de dinheiro aos empreiteiros e aos especuladores durante a fase de crescimento da bolha do imobiliário tem sido altíssimo. Os economistas avaliam as perdas dos bancos irlandeses em cerca de 106 mil milhões de euros.

Cresce a irritação em relação às instituições que a maioria do povo irlandês culpa pelo colapso económico: os bancos privados apoiados pelo Estado e os especuladores imobiliários. E é agravada pela miséria que grassa por todo o país, uma vez que a Irlanda permanece atolada na recessão. As estatísticas mais recentes do Instituto Central da República, reveladas antes do Natal, constatam que o PIB da Irlanda sofreu uma contração de 1,9% no terceiro trimestre de 2011.

Movimento vai impor regras aos "ocupas" da Irlanda

No acampamento dos Ocupar frente ao Banco Central da Irlanda, ponto fulcral na oposição aos bancos e à política de salvamento que lhes tem sido aplicada, Mac an Bháird sublinha que o seu movimento vai impor regras aos “ocupas” da Irlanda: "Não são toleradas drogas nem bebidas nesses lugares, durante as nossas ocupações, porque estamos a marcar uma posição política. Também é um movimento totalmente não-violento, como todo o movimento Occupy. E não levamos das casas que ocupamos nada que não nos pertença." Explica que sobrevivem por "skip diving" – pedindo restos de comida e alimentos que as grandes cadeias de supermercados deitam fora todos os dias.

Quando o Governo irlandês impõe mais de 2,2 mil milhões de euros de cortes no orçamento de dezembro, para equilibrar a dívida da Irlanda, Mac an Bháird diz que a sua campanha está a ganhar o apoio de setores normalmente conservadores: "Mesmo no acampamento Ocupar junto do Banco Central, há pessoas de classe média que aparecem e nos dizem que concordam com a nossa posição. É a classe média que está a pagar a ganância dos banqueiros e empreiteiros, bem como este sistema corrupto. Percebem a lógica de ocupar edifícios que iam ficar a apodrecer durante anos."

Os ativistas pretendem ocupar em breve um edifício emblemático na posse do NAMA, em Dublin, e testar a atitude das autoridades. "Vai ser interessante ver se eles estão preparados para colocar pessoas sem-abrigo fora do prédio, uma vez que é propriedade do Estado e, portanto, do povo, e que irá provavelmente ficar vazio por muitos anos", acrescenta.