Para John, o Natal branco do ano passado foi um concerto de "gospels", na paróquia Santa Maria Nascente. John lembra-se das longas noites em que os seus amigos, ganeses como ele, que moram no centro histórico, e os senegaleses – que, nesta cidade de moradias, são os únicos a viver em habitações sociais – se reuniam na igreja para ensaiar. "No ano passado", diz John, "o Natal branco também foi a minha festa.Sou cristão. Organizámos aquele concerto, porque sabemos que os italianos não conhecem realmente este género de música. Só da televisão. Mas, este ano, dizem-nos que, quando chegar o Natal, já temos de ter partido."

John e outros imigrantes representam hoje um quinto da população de Coccaglio, pequena cidade dos arredores de Bréscia (norte) que, com a operação "White Christmas", deu o sinal de abertura da caça ao clandestino. Nas instalações da Câmara Municipal, há um gráfico afixado na parede. A curva deste, que segue a direito até ao topo, mostra as alterações étnicas dos últimos 10 anos. Abril de 1998, 177 estrangeiros. Abril de 2009, 1 583, para um pouco menos de 7 000 habitantes. Uma vaga migratória que submergiu esta cidade muito antiga e o seu centro histórico, que parece ter parado no tempo, com o seu castelo romano enfeitado com luzes coloridas, a velha igreja paroquial onde de vez em quando é celebrada missa, o monumento a Luca Marenzio, um poeta que compôs madrigais no século XVI, a dominar a praça que tem o seu nome e que divide a cidade ao meio.

Câmara não faz comentários

Na cidade, discute-se e comenta-se mas a administração municipal optou pelo silêncio. Umberto Bossi, o líder da Liga do Norte [partido populista e xenófobo, membro da coligação no poder em Roma], diz que "a equipa camarária cumpriu a lei, embora não fosse necessário dar à operação o nome de ‘White Christmas'*, que poderia muito bem chamar-se* ‘Natal, controlo de documentos’". Franco Claretti, o presidente da Câmara, e Claudio Abiendi, o conselheiro municipal com o pelouro da segurança, "membros da Liga desde a sua fundação", preferem não fazer comentários. Para Agostino Pedrali, responsável pelas questões sociais, "desde que conquistámos a Câmara, em Junho, gastámos mais dinheiro com os imigrantes do que com os italianos: 89 000 euros com os primeiros e 43 000 euros com os outros". "Isso não passa de propaganda", contrapõe Claudio Rossi, que encabeça a oposição de centro-esquerda. "Das 150 habitações a atribuir, só duas foram atribuídas a estrangeiros."

Para encontrarmos quem tenha vontade de falar, basta ir até à periferia da cidade e entrar no café e tabacaria May Day. Na cidade, chamam-lhe o "café dos kosovares" mas é Andrea Cavallini, "bresciano de pura gema", quem, com a ajuda da mulher, serve grappa e luta com a máquina expresso para atender clientes italianos, albaneses, macedónios e kosovares. "Todos eles trabalham. Uns são operários e outros trabalham na construção." Andrea, que é amigo e o pai de todos estes jovens eslavos, ficou com a parte de tabacaria e vendeu-lhes o café: "Não me agrada esta iniciativa. O método é horrível. Mandam-nos uma carta e, se não respondermos, vêm a nossa casa e passam revista, para ver se não damos guarida a clandestinos. Era o que faziam no tempo de Mussolini. Estaline fazia a mesma coisa. É a isso que queremos voltar?" Quando se pergunta aos jovens kosovares o que pensam da operação "White Christmas", este param de jogar matraquilhos e os seus sorrisos extinguem-se.

O maior medo: desemprego

"O problema não são os controlos nem o nome que lhes dão", diz Mergan. "A questão é que não é a altura indicada. Porque, actualmente, o risco é, se perdermos o emprego, perdemos também a possibilidade de renovar os papéis. É verdade que há uma ajuda, em caso de desemprego, mas só podemos pedi-la uma vez. E depois? Que fazemos com a nossa mulher e com os nossos filhos, que nasceram aqui, em Coccaglio?" Mergan tem 38 anos e chegou à região de Bréscia há 11 anos. Casou-se e, agora, tem quatro filhos. A sua história é igual à de muitos imigrantes, que trabalham nas obras em Bergamo e em Bréscia, na Scab, uma fábrica de móveis, na Bialetti, que fabrica as conhecidas cafeteiras, em dezenas de pequenas empresas de mecânica. "Já não tenho trabalho. Há meses que os italianos não me chamam", diz Mergan. "O que vai acontecer, se as coisas continuarem assim e se, um dia, eles forem a minha casa, para fazer um controlo?"