Internet: “A Net é o ambiente em que os jovens funcionam”

Varsóvia (Polónia), 24 de janeiro. Protesto contra a intenção do Governo polaco de assinar o acordo internacional ACTA sobre direitos de autor
Varsóvia (Polónia), 24 de janeiro. Protesto contra a intenção do Governo polaco de assinar o acordo internacional ACTA sobre direitos de autor
Gazeta Wyborcza (Varsóvia)

O anúncio do Governo de que estava prestes a assinar o tratado antipirataria ACTA causou protestos pacíficos em massa na Polónia. Vários milhares de jovens fizeram uma manifestação em Varsóvia, na terça-feira. O antropólogo de Internet Piotr Cichocki explica porquê.

Grzegorz Szymanik: O que significa a Internet para os jovens?

Piotr Cichocki: Em tempos, pesquisei o portal da comunidade Grono [uma rede social polaca semelhante ao Facebook], para observar como os seus utilizadores criam as respetivas identidades virtuais através de perfis. Muitos apresentavam-se por intermédio de ligações. Em vez de escreverem sobre si próprios, faziam citações de livros, de canções. Ou hiperligações para vídeos do YouTube ou ficheiros .mp3. As suas identidades são tecidas com muitos meios recolhidos na web.

O que significa isso? Que a informação online molda a identidade dos utilizadores de Internet. Fornece-lhes material de construção. E os jovens partilham o que descobrem. Impedi-los de o fazerem é como uma espécie de amputação de identidade. Eles protestam porque têm medo que o ACTA possa rotular as suas escolhas existenciais e liberdade de expressão da identidade como pirataria. Estão realmente assustados com a ideia de que alguém queira confiscar uma parte da sua identidade.

É por isso que toda a gente está a protestar, independentemente de simpatias políticas: os jovens saem em prol de todos os tipos de opções, tanto da Antifa [um movimento antifascista] como da extrema-direita. Para eles, a Internet é o ambiente em que funcionam, recolhendo informações sobre o que lhes interessa e moldando-se politicamente. E querem que permaneça assim.

E quanto aos direitos de autor?

Estes jovens não consideram o que fazem na web um roubo. Se algo está lá, é para usar. Mas pode ser visto como violação da lei.

Pois pode. Porque é roubo.

É roubo, mas não pode ser encarado nos mesmos termos em relação à informação ou à cultura que para a propriedade material.

A maneira como a venda e troca de cultura é entendida hoje é uma invenção relativamente nova. Henry Jenkins descreveu o fenómeno recorrendo ao exemplo da cultura nos Estados Unidos. Segundo ele, no século XIX, a cultura não tinha dono. As canções eram trocadas entre aldeias e as baladas folk reutilizavam material de textos literários.

A profissionalização e a reserva de conteúdos apareceu com a industrialização da cultura. Os cantores tornaram-se vocalistas, porque as suas canções eram transmitidas pela rádio e televisão e reproduzidas a partir de discos.

A situação mudou quando os computadores pessoais entraram em casa das pessoas, permitindo que qualquer utilizador edite som, imagens, texto, faça misturas e remisturas, e partilhas. A cultura popular está de volta e a “indústria” da cultura ficou em perigo.

A atividade criativa de todos os tipos de produções on-line anda na fronteira da legalidade. Mas talvez seja a noção de legalidade que está fora de sintonia com o real. As relações entre produção e consumo estão a mudar e não sabemos que rumo vão seguir.

Soluções legislativas, como o ACTA, que desagrada à maioria dos utilizadores de Internet, tentam forçar a barreira, de forma a aumentar os lucros dos produtores do ramo, protegendo e valorizando os seus papéis.

Mas os artistas vão morrer à fome.

Os próprios artistas estão à procura de canais de distribuição novos e alternativos, independentes das grandes companhias, como evidenciam publicações na Internet de artistas como os Radiohead ou o enorme sucesso de portais de venda direta de música, como, por exemplo, o bandcamp.com.

O ACTA tem sido o centro das conversas dos últimos dias. O grupo Anonymous bloqueou sítios do Governo polaco. Sítios populares pintaram os ecrãs de preto. Os utilizadores criaram máscaras. Os portais escrevem. O Governo comenta. Os utilizadores da Internet já tinham consciência deste seu poder?

Se estamos a falar do grupo restrito que fez esse barulho todo, engenheiros de software experientes e hackers que fazem intervenções políticas fora do horário de trabalho, com que as pessoas se identificam no movimento pelo código aberto – a resposta é sim. Sejam eles quem forem, sabem muito bem como modificar códigos e navegar pela web. Cresceram nesse meio. Agora, não só passam o tempo livre online, mas também aprendem e trabalham assim.

A conclusão otimista é que temos muitos programadores talentosos.

E sobre o público desta cena? No passado, ia-se para a rua, hoje participa-se inundando sítios de Internet, para os bloquear. É assim que está a emergir uma comunidade de Internet?

Está a emergir em oposição. O fator comum é o protesto contra as restrições que podem afetar todos os aspetos das suas vidas, limitando a sua participação no mundo. Num caso extremo, isto pode mesmo transformar-se em algo semelhante ao Solidariedade em 1980. Massas sociais de diferentes origens, reunidas sob uma palavra de ordem simples, porque o sistema político atingiu os fundamentos das suas vidas. Porque, para eles, é algo absolutamente elementar.

Analiso memes que encontro em computadores de amigos meus. Um recente era especialmente atual. "O governo rouba o teu dinheiro" – seguido de um rosto indiferente. "Não há perspetivas para um amanhã melhor" – e novo rosto de indiferença. Finalmente, "Acesso limitado à web" – e aí aparece a imagem de Arnold Schwarzenegger a recarregar uma arma de grandes dimensões.

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