Compreendo (mais ou menos) Tariq Ramadan, quando este afirmou, no jornal de ontem [do El Mundo]: "Para os cidadãos normais e vulgares, é muito complicado aceitar esta nova presença muçulmana como um factor positivo." Ramadan associava esse "complicado" da parte dos cidadãos às "polémicas desagradáveis" que envolvem o Islão. E citava algumas: "Violência, extremismo, liberdade de expressão, discriminação baseada no sexo, casamentos forçados." Para começar, Ramadan deve reconhecer que tudo o que afecta a liberdade e a vida não constitui uma polémica menor. E que todas as polémicas referidas as afectam seriamente. Portanto, a opinião pública europeia não está a ser irracional ao desconfiar dos muçulmanos. Todas essas coisas tão desagradáveis são feitas em nome de Alá, embora eu não duvide que também é possível praticar alguns actos de bondade, invocando-o.

No entanto, creio que não é esta a questão principal do debate nem o fundamento do não entendimento europeu, ou mesmo do desdém, detectado por Ramadan. Na verdade, inquirindo-me a mim próprio, eu, europeu, pergunto a Ramadan: Por que seriam os muçulmanos um factor positivo?Um muçulmano é um homem definido pela sua fé e só pela sua fé. Em nome de quê deve o laicismo europeu considerar como "positivo" alguém que tem por único cartão de visita a sua crença?

Admitiríamos que alguém se apresentasse no espaço público, dizendo "sou católico, o que quer dizer que sou um factor positivo"? Uma das glórias da Europa, duramente alcançadas, é que a religião não abre as portas do paraíso moral. A religião é apenas um facto – e discutível. Poderia aceitar, e sem uma generalização equívoca, que Ramadan me dissesse que a presença árabe é positiva. Tal como se me dissesse que a presença chinesa era positiva. Mas não consigo ver em que medida pode ser positivo o contributo de um comportamento definido pela religião.

É provável que a rejeição suíça dos minaretes contenha o racismo e a intolerância que alguns crentes e alguns laicos supõem. Mas talvez contenha também algo mais subtil e impalpável, que deve ser tido em conta. Hoje, muitos europeus olham para as velhas igrejas cristãs com uma intenção totalmente desprovida de fé. Vêem-nas como aquilo que também são: puros objectos culturais. Um acto muito difícil em relação aos minaretes. E que se tornou difícil, inclusivamente, com os próprios restos de arquitectura muçulmana existentes em Espanha. Nos minaretes, novos e velhos, impera apenas, despótica, a religião. Um factor intrinsecamente negativo para este europeu.