Há vinte anos, imediatamente antes da queda do Muro de Berlim, o meu pai foi assassinado num hospital búlgaro que fazia experiências em idosos. À laia de luto, impôs-se-me um género literário: o policial metafísico “O Velho e os Lobos” [Difusão Cultural, trad. Pedro Támen], onde o velho é morto porque vê as pessoas em redor dele metamorfosear-se em lobos. E um texto, “Bulgarie ma souffrance”, reflexão sobre a tradição cultural, nomeadamente a religião, que subjaz a essa estranha “deterioração da integridade política” que hoje aparece diagnosticada pela ONG Transparência Internacional… na Roménia e na Bulgária. A actualidade política faz-me voltar a isso, com a crise económica, social e política profunda. Apesar de sublinhar aqui a situação romena, são os desenvolvimentos similares destes dois vizinhos que tenho em mente. Eles colocam uma questão que preferimos ignorar: estamos na periferia ou no centro da Europa?

A transição do comunismo para a UE fez-se sem que o antigo aparelho de Estado fosse substituído ou seriamente renovado. Os meios de comunicação social locais dissecam tranquilamente a génese do fenómeno que faz da Roménia e da Bulgária os países mais corruptos da UE. À “elevada corrupção” dos dirigentes, que transforma antigos quadros comunistas numa oligarquia neo-capitalista, acrescenta-se a “corrupção quotidiana”: “relações pessoais”, “subornos” em catadupa, estratégia do desenrasca e desvio de dinheiros públicos, etc.…

Desde 2002 que o GRECO (Grupo de Estados contra a Corrupção), associado ao Conselho da Europa, faz soar o alarme; mas o OLAF, Organismo de Luta Antifraude da UE não dispõe nem de meios nem de competências suficientes para tratar os diversos casos de corrupção nos Estados-membros. A ineficácia destes mecanismos de cooperação e de verificação desacredita a própria Europa. Bruxelas reduziu em 220 milhões de euros os apoios destinados aos projectos agrícolas e de infra-estruturas de transportes búlgaros, e congelou 600 milhões, à espera de medidas governamentais contra a corrupção. A Roménia passa a esponja sobre as críticas da UE, mas não sobre as sanções.

Medo, covardia, comprometimento profundo durante o comunismo do casal Ceaucescu: a corrupção arrasta o seu cortejo de escândalos trágico-cómicos num cenário de transição complexa, onde o nacionalismo, a xenofobia e o populismo ombreiam com o despertar para o sindicalismo, a miséria camponesa e a inevitável “questão cigana”. Os ciganos… Entre o ladrãozeco e o vadio? Ou, pelo contrário, cidadãos europeus por excelência, porque capazes de circular, e que convém proteger não apenas na acepção dos Direitos Humanos, mas também levar à cena política? Belo paradoxo: o cigano é um romeno? Um europeu-tipo? Ou mesmo o Homem Universal? Mas então, esta pobre Roménia está na periferia ou no centro da Europa?

É necessário governar na ponta da metralhadora”, repete Corneliu Vadim Tudor, ex-louvador do casal Ceaucescu, agora “iluminado por Deus para salvar a nação” [dirigente do Partido da Grande Roménia, de extrema-direita]. Com o búlgaro Volen Siderov [ultranacionalista do partido Ataka], representam o grande contingente do grupo europeu “Identidade, tradição, soberania” – logo a seguir ao Front National francês. Mistura de castanho e vermelho, que casa o ultranacionalismo da extrema-direita à nostalgia comunista de um Estado protector, combatem os “meios de Comunicação Social políticos” e as “minorias privilegiadas” (húngara na Roménia, turca na Bulgária).

Democracia kafkiana”, “estranha combinação de burlesco e bizantinismo”: Norman Manea, escritor judeu romeno instalado em Nova Iorque, tem razão. Pressionados para encontrarmos remédios jurídicos e sociais, esquecemos as fontes culturais. Se é verdade que se impõe uma transavaliação das tradições religiosas, tecelãs da diversidade cultural europeia, essa análise depara-se aqui com um actor cuja importância a Europa secularizada continua a subestimar: a Igreja Ortodoxa. Associada ao Estado que paga ao clero e a uma classe política pactuante com a ortodoxia na sedução da população, a Igreja confessa ter colaborado com a Securitate e persiste em associar-se à acção do Estado. Estamos longe de uma vida espiritual orientada para a tomada de consciência cidadã e a integridade pública!

Existe uma cultura europeia? A minha resposta é “Sim”. Ao mostrar que é capaz de olhar para si, para as suas deficiências e os seus horrores, a cultura europeia é portadora de identidade polifónica, evolutiva e inovadora, único antídoto para a automatização da espécie. Do Atlântico ao Mar Negro, de Ovídio a Ceaucescu, da Securirate ao prémio Nobel para Herta Müller.