Faltava um ano para a chegada da crise. Em 2007, o champanhe fluía com abundância em Valência, na costa leste da Espanha. A região, banhada pelas águas mansas do Mediterrâneo, celebrava a 32ª America’s Cup. Hoje, o porto, que serviu de base à célebre regata internacional e que custou à região 1,8 mil milhões de euros, está deserto. Os hangares que acolhiam as equipas de vela estão ao abandono, há cinco anos que esperam que lhes seja dada uma nova utilização.

Valência, referida durante muito tempo como um modelo de boa gestão económica pelo Partido Popular (PP, conservador), que governa a região desde 1995, é atualmente apontada a dedo. Por ter a dívida, de cerca de 20% do PIB, mais elevada da Espanha. Pela “má utilização dos fundos públicos”, que marcou a última década, na opinião do economista valenciano Vincent Soler.

A America’s Cup é apenas um exemplo das despesas sumptuosas relacionadas com uma política “de grandes eventos” que o governo regional procura “rever em baixa”, como explicou ao Monde o vice-presidente da região, José Ciscar.

La Ciudad de las artes y las ciencias [A cidade das artes e ciências], um ambicioso complexo cultural projetado pelo arquiteto Santiago Calatrava nas margens do rio Túria, custou 1,3 mil milhões de euros aos contribuintes e, para fazer dinheiro, está reduzida às suas festas de casamento. O circuito urbano de Fórmula 1, com os seus 5,4 km de comprimento, 14 m de largura e 25 curvas, precisou de um investimento de 90 milhões de euros, sem contar com a taxa anual para se manter no campeonato da Europa, que, segundo a comunicação social, ascende a 20 milhões de euros, e que cauciona Valência até 2014. Em Benidorm, o parque de atrações Terra Mítica, inaugurado em 2000, custou perto de 400 milhões de euros. A região tenta vendê-lo por 65 milhões enquanto o desemprego ameaça metade dos trabalhadores.

"Muitos empresários negligenciaram as suas empresas"

"Na última década, temos optado pelo endividamento para podermos rivalizar com as outras regiões”, justifica-se M. Ciscar. Em oito anos, construímos 500 km de estradas, 420 escolas e oito hospitais e dezenas de estações de saneamento. E os grandes eventos tiveram uma rentabilidade social evidente, permitiram a criação de 271 mil empregos e atraíram 69 milhões de visitantes desde 1998.”

Os sindicatos discordam frontalmente desta leitura. “Venderam-nos uma empresa de papelão e hoje gostaríamos de fazer repercutir as despesas excessivas sobre o Estado providência”, denuncia o secretário-geral da União Geral de Trabalhadores (UGT) de Valência, Conrado Hernandez, que, num mês, liderou quatro manifestações contra os planos de austeridade. Cortes nos salários dos funcionários, redução drástica do número de empresas públicas, aumento das propinas universitárias e das cantinas escolares: medidas que não são aceites.

De acordo com o Instituto Valenciano de Pesquisa Económica (IVIE), os “grandes eventos” representam 13% da dívida atual da região, avaliada em quase 20 mil milhões de euros. “Por trás da aparência de riqueza e dos excessos, este modelo económico superficial empobreceu-nos”, sublinha Vicent Soler, professor de economia aplicada na Universidade de Valência. “Hoje, o rendimento por habitante é 12% inferior à média nacional, enquanto há quinze anos, Valência estava dentro da média espanhola.”

Durante o boom, a construção representou até 14% do emprego na região, enquanto anteriormente, Valência era conhecida sobretudo pela sua indústria. Os têxteis, os brinquedos, os artigos de couro, os mármores, a cerâmica ou a metalurgia são uma sombra do que foram. Devido às deslocalizações para a Ásia e para a Europa de leste, mas também porque “uma grande parte do capital foi reinvestido no setor da construção, onde era fácil ganhar dinheiro”, explica o presidente da confederação das empresas de Valência, José Vicente Gonzalez. “Muitos empresários negligenciaram as suas empresas.”

A festa parece ter acabado de vez

As duas caixas de aforro regionais, a Bancaja e a CAM, também caíram na armadilha da bolha imobiliária. Devido à delicada situação em que se encontraram, a Bancaja fundiu-se com a Bankia, a antiga Caja Madrid, e a CAM foi nacionalizada pelo Banco de Espanha, tal como o Banco de Valência, apesar de centenário e ligado à burguesia local. “Já não há poder de decisão em Valência em matéria de concessão de crédito”, conclui o economista Francisco Perez, investigador do IVIE.

Hoje, Valência está à beira da falência. As três agências de notação financeira, a Moody’s, a Fitch e a Standard & Poor`s, classificaram a sua dívida na categoria dos “créditos podres”. Em dezembro de 2011, o Governo espanhol teve que vir em socorro de Valência para ajudar a cidade a renovar um crédito junto do Deutsche Bank, no valor de 123 milhões de euros, que chegara à data de vencimento.

“Se o sistema de financiamento não mudar e o Governo não ajudar a região, a situação será insustentável”, garante M. Perez, que duvida da capacidade de Valência de respeitar o objetivo para o défice. “Os rendimentos da região nem sequer permitem cobrir os encargos de saúde e de educação.” Em Valência, a festa parece ter acabado de vez.