Semente de europeus? Os jovens que entram num projecto Erasmus durante os seus estudos superiores são a vanguarda da nação europeia? Era essa a ideia, aquando do lançamento do programa, em 1987. "O objectivo da União”, esclarece Anne Van Gemert, membro do gabinete de informação de França do Parlamento Europeu, “é promover certos valores entre os europeus: solidariedade, liberdade, mobilidade… Nos anos 1980, apercebemo-nos de que o que se tinha avançado no plano económico ou agrícola não tinha equivalente em matéria de cidadania. Daí o lançamento do Erasmus."

É difícil dizer se a União Europeia foi bem sucedida nesta sua aposta. É verdade que 1,7 milhões de estudantes beneficiaram do programa em mais de vinte anos e apresentam características comuns. "Se ‘A Residência Espanhola’ (Cédric Klapisch, 2002) é um filme de culto para os estudantes Erasmus, é porque mostra bem como se constrói o seu pequeno mundo, um grupo à parte", considera Sara Pini, chefe de investigação da Fundação para a Inovação Política, ex-estudante Erasmus, italiana. O que os une é a mesma experiência de desenraizamento. “Partilha-se algo muito forte, que cria relações, frequentemente exclusivas", prossegue. Essas comunidades multiculturais constituem "unidades de vida informais, uma ocasião extraordinária de aprendizagem prática do que é a Europa".

Nesses viveiros europeus, crescem redes de amizade ou de projectos, como o site Internet Café Babel, "o primeiro meio de comunicação europeu, multilingue, cujo objectivo é contribuir para o surgimento de uma opinião pública europeia", explica Alexandre Heully, director de Comunicação do site. O viveiro torna-se berçário, quando os inevitáveis "eurocasais" dão "eurobebés". "O Erasmus é a agência matrimonial mais eficaz da Europa!", brinca Sara Pini.

Mas isso cria um espírito europeu? Sim, concordam Van Gemert, Heully e Pini. "As gerações que passaram pelo Erasmus”, esclarece Sara, “estão agora a chegar ao poder político e económico. Observa-se nestas jovens elites uma maior abertura." Determinar a parte que cabe à experiência Erasmus é difícil. Magali Ballatore, pós-doutoranda ligada ao CNRS [centro francês de pesquisa científica] e a trabalhar sobre a mobilidade do Erasmus, observa que o sentimento de ser europeu "não depende apenas do passado no Erasmus, mas também da personalidade, da história ou do meio social e cultural de que vêm. Além disso”, prossegue, “o facto de estar no estrangeiro e de conviver com outros estudantes estrangeiros pode também exacerbar um sentimento nacional ou local que não era especialmente sensível anteriormente…"

É, então, um núcleo de uma nação europeia? "As vagas de imigração na Europa, muito mais amplas que os 1 ou 2% de estudantes envolvidos no Erasmus, fizeram mais pela Europa", considera Magali Ballatore. Esta fragilidade não escapou ao secretário de Estado dos Assuntos Europeus, Bruno Le Maire, que quer que os programas de mobilidade europeus sejam alargados de modo a que metade de uma faixa etária possa beneficiar deles.