Como Boston e Glasgow, Liverpool tem sido sinónimo de emigração da Ilha Esmeralda. Durante uns tempos, o Tigre Celta rugiu e os viajantes do Mar da Irlanda fizeram o sentido inverso. Mas as correntes económicas mudaram novamente e o condado de Merseyside tornou-se o destino para uma nova geração de migrantes.

Prevê-se que cerca de 75 mil cidadãos irlandeses emigrem em 2012 – um fluxo maior do que o da década de 1980. Num país com uma população de 4,5 milhões, tais alterações são do maior interesse e o Irish Times criou um blogue chamado Generation Emigration (Geração da emigração), com o cabeçalho a imitar um painel de partidas dos aeroportos.

Com o aumento do desemprego, os jovens, principalmente os rapazes a entrar na casa dos 20 anos, estão a voltar-se para outros países europeus, Austrália e Médio Oriente, como fonte de trabalho. São hoje 356 mil os cidadãos irlandeses residentes no Reino Unido, segundo revelam as mais recentes estatísticas do Instituto Nacional britânico, a um ritmo que é apenas ultrapassado pelos imigrantes polacos.

A emigração irlandesa não subia a níveis tão elevados desde 1989, altura em que 44.000 pessoas deixaram o país. O impacto foi patenteado quando a associação de futebol gaélico não foi capaz de formar equipas na península de Dingle, no último inverno, porque não havia homens suficientes.

Liverpool, que tem uma longa história de imigração proveniente da Irlanda – cerca de três quartos dos seus residentes afirmam ter genes irlandeses –, está a receber uma nova onda de migração irlandesa.

Emigrar ou falar pelo Skype

Um assistente universitário, antigo jornalista, Michael Mulqueen, e a esposa, Fidelma, compraram a sua casa de sonho em 2008, quando ele lecionava na Universidade de Limerick. Os dois filhos de ambos foram para a escola e tinham parentes no condado vizinho, Clare. Fizeram-lhe entretanto uma proposta de trabalho, a chefiar o Departamento de Política e Comunicação, na Liverpool Hope University. "Foi uma decisão extremamente difícil, em termos familiares, porque não queria arrancar as crianças das suas raízes", diz Mulqueen. "Pesava a instabilidade, mas também a atração inerente do trabalho."

Inicialmente, Mulqueen deslocava-se todas as semanas entre a Irlanda e Liverpool, contando com um grande apoio do reitor da sua faculdade, que tinha passado por uma situação similar. Regressava no domingo à noite e voltava para junto da família na quinta-feira à noite. "Foi um momento muito movimentado, com dias muito longos e difíceis", recorda. "Durante a semana, mantínhamos conversas pelo Skype, mas os miúdos deram a entender que não estavam muito satisfeitos com o sistema. Tomámos então a decisão de emigrar."

A família chegou a Liverpool em fevereiro de 2011. Fidelma ainda estava a trabalhar em Limerick, pelo que o vaivém se deu no sentido oposto durante dois meses. Encontrar lugar na escola certa para os filhos revelou-se complicado, ainda que pudesse ser muito pior sem o Inglês como segunda língua. A família passou o primeiro Natal em Liverpool, está a fazer amigos e considera que se ambientou rapidamente.

Mulqueen acha que há semelhanças entre Liverpool e Limerick. "A regeneração de Liverpool ainda não está plenamente realizada, mas houve enormes progressos desde que vim cá pela primeira vez de visita, no início dos anos 1990. Limerick, por seu lado, é uma cidade que está a viver problemas quase idênticos de carências sociais, e com o alojamento e o imobiliário que são áreas desesperantes."

Os traumas do Tigre Celta

Mulqueen cresceu no condado de Galway, que continha bolsas de pobreza. No início da década de 1990, após concluir a universidade, grande parte dos seus colegas emigraram da Irlanda. Sente-se culpado por ter saído do país? Afirma que o Governo irlandês percebeu o enorme contributo que a educação pode dar para o crescimento económico e investiu muito nela, pelo que acredita que não vai representar um problema muito sério para as gerações futuras.

Michael Noonan, o ministro das Finanças irlandês, causou consternação, em janeiro, quando declarou a emigração uma "escolha de um estilo de vida" que não tinha a ver com a crise económica. Noonan, que tem três filhos a viver no estrangeiro, afirmou: "Há sempre jovens a entrar e a sair da Irlanda e alguns serão emigrantes no sentido tradicional. Outros querem apenas sair da ilha por uns tempos." Mais tarde, disse que tinha sido citado fora de contexto.

Alan Barrett, do Instituto de Pesquisa Económica e Social, descreve o regresso da emigração como um dos elementos mais traumáticos do colapso da Irlanda. "Durante o período que vai desde a independência até ao Tigre Celta da década de 1990, as pessoas nascidas na Irlanda nunca pensaram ser possível encontrar trabalho na ilha. Isso mudou com o Tigre Celta, mas agora inverteu-se novamente. Como aconteceu com as anteriores vagas de emigração, o Reino Unido continua a ser um destino privilegiado pelos emigrantes irlandeses. No entanto, a fraqueza do mercado de trabalho na Grã-Bretanha e a relativa firmeza da economia australiana tornam a Austrália mais atraente para os irlandeses da presente vaga."

Não partilha a preocupação de que este êxodo possa limitar as possibilidades de crescimento económico da Irlanda. "A experiência dos anos 1980 e 1990 sugere que, embora as pessoas partam quando os tempos estão maus, voltam quando a situação melhora."