Fiquei surpreendido por, há dez anos, encontrar vodca com marijuana na mais conceituada mercearia fina de Praga. Num álcool a 40 graus, de consistência oleosa e cor de palha, flutuavam sementes de canábis. Fiquei surpreendido ao ver à venda, na livraria vizinha, um livro de receitas com o título: “Cozinhando com canábis”.

Fiquei surpreendido por constatar que, perante o dilema de “comer ou fumar”, o autor do livro fosse categórico: comê-la. Porque fumada, a erva age imediatamente ou ao fim de cinco minutos, e a sua acção dura duas horas, enquanto que, ingerida em qualquer prato, produz efeito apenas entre meia hora e hora e meia depois, mas mantém o efeito durante oito horas.

Fiquei surpreendido quando o livreiro me confessou que a prática da culinária com canábis era ainda muito rudimentar na República Checa. As pessoas usam a erva de qualquer maneira, misturando quantidades à toa com comidas diversas, quando são necessárias ementas próprias, concebidas especialmente para a marijuana – daí o carácter indispensável do referido livro. Fiquei surpreendido quando, após um processo que levou anos, o tribunal de Olomuc absolveu a editora deste livro e autorizou a sua divulgação. Fiquei surpreendido quando soube que os primeiros apelos à legalização da canábis tinham sido lançados na Checoslováquia menos de um ano depois da queda do comunismo, no jornal estudantil Zverdlo.

Václav Havel, apreciador de erva

Fiquei surpreendido por saber que, em 2000, o Presidente Havel amnistiou um jovem de 19 anos que tinha passado erva a dois rapazes mais jovens que ele, o que lhe valeu uma condenação a quatro anos de prisão com pena suspensa. “Não podia olhar-me ao espelho”, terá declarado o Presidente, ele próprio consumidor. Fiquei surpreendido que na clínica psiquiátrica da Faculdade de Medicina da Charles University de Praga tenha sido criada uma cátedra de Adictologia, que encetou imediatamente estudos científicos sobre a marijuana e o seu consumo. Fiquei surpreendido por saber que os checos ocupam o primeiro lugar na Europa, à frente da Holanda, em matéria de consumo de canábis. Em 2004, um europeu em cada dez e um checo em cada cinco fumava marijuana. Fiquei surpreendido ao saber que, desde que as autoridades fecharam os olhos ao consumo de canábis, se constata uma baixa significativa do consumo de drogas duras na República Checa.

Fiquei surpreendido por o mesmo suceder com o consumo de cerveja. Parece que quanto mais cerveja os checos bebem, menos bebidas com maiores teores alcoólicos consomem. Fiquei surpreendido por uma droga formalmente proibida, como a marijuana, ter, na República Checa, duas revistas oficiais, a Konoptikum e a Soft Secrets.

Fiquei surpreendido por as primeiras informações sobre a cultura da marijuana em casa e com luz artificial terem aparecido no início dos anos 1990, no muito sério semanário Reflex, sob a forma de guia para os doentes atingidos pela doença de Parkinson, que pode ser tratada com esta planta. Fiquei surpreendido por a mesma revista organizar, desde 2004, um concurso anual da melhor fotografia de marijuana cultivada pelos leitores, a Reflex Cannabis Cup. As fotografias concorrem nas categorias Interior, Exterior, Beleza e Ikebana. Fiquei surpreendido por haver um milhar de fotografias em competição todos os anos e por os seus autores, mesmo os que ganham o concurso, continuarem anónimos. Só metade dos membros do júri é tornada pública. É formado por pessoas conhecidas, que não sabem muito sobre marijuana, e por desconhecidos, que conhecem tudo sobre a sua cultura em casa.

"Os checos têm uma bela cultura"

Fiquei surpreendido por a primeira selecção das fotografias ser feita pelo próprio chefe de redacção do semanário (o mesmo que, depois de ter visto o filme "Katyn" [de Andrzej Wajda] na televisão checa me escreveu por correio electrónico: “Os checos têm uma bela cultura, mas os polacos têm uma bela alma”). Fiquei surpreendido por a revista incluir numa mensagem especial que a utilização desta droga antes dos 16 anos de idade é prejudicial, podendo conduzir a psicoses na adolescência; que, cozinhada, pode ser facilmente utilizada uma dose demasiado forte; que fumada é perigosa e que, como qualquer matéria orgânica inalada, é potencialmente cancerígena. Fiquei surpreendido por a redacção aconselhar a “NÃO FUMAR!”. Preconiza em alternativa a utilização de um inalador de marijuana, que presumivelmente filtra substâncias betuminosas muito prejudiciais. Mas quando soube que, a partir de 1 de Janeiro, a cultura da canábis para uso pessoal (até cinco plantas) e a posse de pequenas quantidades de droga (por exemplo, até 15g de canábis) deixaram de ser punidas pela lei da República Checa, não fiquei surpreendido.