No entender do seu antigo presidente da Câmara, Massimo Cacciari, Veneza é vítima de duas maldições: as condessas que tentam salvá-la e o caráter dos seus habitantes. "Veneza está a morrer!", lamentam-se os aristocratas e os venezianos.

Na verdade, Veneza já morreu. E ressuscitou como montra. De dia, Veneza não é uma cidade triste, nem mesmo melancólica. Pelo contrário, nunca foi tão bela e tão viva. Nunca chegou até ela tanto dinheiro: do nordeste, de Milão, da Europa, da América. Mas é dinheiro privado. Dinheiro de mercadores e não de mecenas. Os restauros e as fundações florescem por todo o lado.

O exemplo mais notório é o da [fundação François] Pinault, que comprou um pedaço de Veneza – a maravilhosa Punta della Dogana, perto da praça de São Marcos, para ali expor as obras dos artistas da sua coleção, que depois vende na sua leiloeira.

Ratos a correrem de um lado para o outro

Presentemente, está no auge a polémica por causa do Fontego dei Tedeschi, comprado pelo grupo Benetton e para o topo do qual a grande estrela da arquitetura holandesa, Rem Koolhaas, projetou um controverso terraço com vista para a Ponte de Rialto. É verdade que havia décadas que ninguém punha os pés na Punta della Dogana.

De noite, Veneza volta a ser ela própria: uma cidade despovoada, como outros centros históricos. Mas aqui, rodeada por beleza, o espetáculo das gelosias fechadas, das luzes apagadas, do silêncio, é mais triste, à medida que o fluxo dos venezianos "de fora" e dos turistas sem dinheiro se desloca para terra firme. Só os locais de encontro dos estudantes se mantêm animados: o Campo Santa Margherita, San Giacomo dell'Orio, o mercado de Rialto. Mas os residentes queixaram-se e o município decretou o horário de fecho à meia-noite.

Massimo Cacciari conta: "Não fazem ideia do que encontrei dentro da Punta della Dogana! Ratos a correrem de um lado para o outro, empregados fechados nos seus cubículos. Na torre que fica em frente a São Marcos, talvez o local mais belo do mundo, havia um apartamento clandestino: alguém morava ali, sem ninguém saber. No dia em que as obras deviam começar, foi encontrado um depósito de tábuas velhas. Eu disse: tirem-nas daqui. Responderam-me que não era possível, que isso era da competência da Superintendência [equivalente ao Instituto do Património]. Telefonei para a Superintendência para as virem buscar. Responderam-me que não era possível porque eram os restos do antigo soalho. Nessa altura, comecei a gritar. Uma cena histérica. Fiquei maluco."

Aconteceu a mesma coisa com o piazzale Roma, onde irá erguer-se o novo palácio da Justiça, cujo preço triplicou em relação ao orçamento inicial. "Acredito que sim", diz o antigo presidente da Câmara. "Terrenos contaminados. Obras atrasadas. E obstáculos de toda a ordem. As obras estavam prestes a começar, quando me comunicaram uma descoberta sensacional: caixas cheias de ossos de animais. Eu disse que já se sabia: até ao século XIX, era ali que funcionavam os matadouros. Responderam-me que a descoberta era da mais alta importância, que iria permitir reconstituir toda a cadeia alimentar de Veneza no século XVIII. Fui lá e mostraram-me um osso de cabra, de vitelo, de vaca… Mais uma vez, comecei a gritar. Outra cena de histeria. Fiquei outra vez maluco: ‘Se as obras não começarem imediatamente, pego num martelo e parto esses ossos todos, um por um!’"

Receitas da cidade cairam a pique

Massimo Cacciari explica que não tem paciência para as "lamentações enjoativas" sobre Veneza, para as lamúrias propagadas pelos "malditos frequentadores de salões" e por uma população que gosta imenso de se queixar. Recorda o muito que se fez nos últimos vinte anos: o novo Arsenal, com o centro de investigação Thetis; a reconstrução do teatro La Fenice – apesar de todas as peripécias; a restauração de Ca' Giustinian, sede da Bienal de arte.

O problema é que o município não tem um euro. As duas fontes históricas que o alimentavam secaram: a lei especial e o casino. O Estado cortou nos subsídios e todo o dinheiro vai para o projeto Mose: a maior obra de engenharia hidráulica do mundo, que deverá proteger Veneza da subida das águas da lagoa. O projeto já absorveu cinco mil milhões de euros e ainda faltam dois anos de obras.

O outro cofre-forte é o casino. Em tempos, os smokings brancos dos jogadores de chemin de fer acorriam ao Lido. Hoje, são os chineses que se acotovelam em volta das slot machines, em Ca' Noghera, em terra firme. Entre a crise e a concorrência do Estado, com os jogos a dinheiro na Internet, esse maná que outrora rendia 200 milhões de euros por ano tem rendido, nos últimos anos, apenas 145 milhões, aos quais é preciso subtrair 100 milhões de custos fixos. As receitas da cidade caíram a pique.

Veneza deveria recomeçar a correr

Hoje, Veneza enfrenta dois grandes problemas: o despovoamento do centro histórico e o destino da maior zona industrial da Europa, a Marghera. O painel digital da farmácia Morelli, no campo San Bartolomeo, recorda a quem ali passa a longa fuga dos habitantes de Veneza, que hoje tem apenas 58 855 residentes.

O problema é que os venezianos já não querem viver em Veneza, não apenas porque os apartamentos em pisos elevados são extremamente caros e ninguém quer aqueles que se situam ao nível da água, por serem demasiado húmidos, nem os que ficam logo abaixo do telhado, por serem demasiado quentes no verão.

Como todos nós, os venezianos desejam ter o automóvel ao pé de casa [e não nos imensos parques de estacionamento do Piazzale Roma]. A Câmara possui 6000 apartamentos, a maior parte dos quais alugados a venezianos de baixos rendimentos. O que falta é a classe média, os burgueses que moravam entre o andar nobre e as águas-furtadas.

Os venezianos vão viver para o continente, para Mestre, a cidade mais feia de Itália, pelo menos até aos últimos anos. Recentemente, a piazza Ferretto foi transformada em zona pedonal, plantaram-se árvores na periferia da cidade, o aterro de San Giuliano foi transformado em parque, a zona urbana passou a dispor de Internet de banda larga e, dentro de pouco tempo, será inaugurado o futuro polo cultural de Mestre, o M9.

Pierre Cardin, que na realidade se chama Pietro Cardin e nasceu em Sant'Andrea di Barbarana (perto de Treviso), gostaria, antes de morrer, de erguer em Marghera, a "Tour Lumière", um edifício de 1,5 mil milhões de euros, 240 metros de altura e 60 andares, onde deverá ser instalada a universidade da moda. O presidente da Câmara não se opõe.

É certo que Veneza continua a ser um destino privilegiado para as viagens de núpcias e que muita gente considera que a basílica de São Marcos é o mais belo edifício do mundo. Para ficarmos convencidos, basta admirar a Cúpula da Criação, a Génesis dos iletrados em que Deus coloca a mão de Adão sobre a cabeça de um leão para indicar a primazia do homem sobre os animais; o mesmo leão que, no mosaico vizinho, sai da Arca de Noé e, depois de meses de inércia, estende as patas e começa a correr.

Era isso que Veneza deveria fazer: recomeçar a correr, apesar do peso da tarefa imensa de preservar toda essa beleza e fazer renascer uma cidade em volta dela.