Quinta-feira 14 de Janeiro em Bruxelas, dois dias após o sismo no Haiti, Catherine Ashton improvisa uma conferência de imprensa. A novíssima Alta Representante para os Negócios Estrangeiros dos 27 apresenta-se então como a “vanguarda” da mobilização europeia em prol das vítimas da catástrofe. Mas a trabalhista britânica decide não se deslocar a Port-au-Prince. Prefere tomar o Eurostar, ao fim da tarde, para Londres… Erro ou escolha deliberada? A chefe da diplomacia da União Europeia (UE), cuja nomeação foi uma surpresa geral, em Novembro de 2009, perdeu aqui uma ocasião única para afirmar a sua presença. Desde então, Catherine Ashton delega. Segunda-feira 25 de Janeiro, foi o francês Bernard Kouchner que a representou em Montréal, numa conferência de doadores para o Haiti. E no entanto, a UE fez de tudo para ser convidada a estar em Montréal, o que não estava previsto pelos Estados Unidos, Brasil e Canadá quando lançaram a iniciativa, apesar de o Velho Continente ser o primeiro doador para as vítimas do cataclismo…

Herman Van Rompuy ou o culto da discrição

A valsa de hesitações de Catherine Ashton ilustra o atribulado começo da nova estrutura de poder europeu saída do Tratado de Lisboa. O texto pretendia melhorar o funcionamento dos 27. Vai afinal complicá-lo? A Europa comunitária tem agora quatro rostos para se mostrar ao mundo e a divisão de papéis é ambígua. A dupla constituída pelo belga Herman Van Rompuy, primeiro presidente permanente do Conselho da Europa, e Lady Ashton está com dificuldades em definir o seu espaço. O presidente da Comissão Europeia defende o seu território, nomeadamente a presidência rotativa, assegurada pela Espanha durante este semestre. E assim, Bruxelas parece continuar a não ter o famoso "número de telefone" que reclamava Henry Kissinger, antigo secretário de Estado norte-americano, em 1970. "O dispositivo está em fase de rodagem, mas o arranque não está a ser famoso", concorda um diplomata. Herman Van Rompuy avalia os riscos da situação.

Criou o hábito de se encontrar todas as segundas-feiras ao pequeno-almoço com o dirigente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso. Mas apesar destes encontros, os dois homens estão já envolvidos numa luta surda para decidir como articular as respectivas missões, em especial na cena internacional. Sempre discreto, Van Rompuy tem uma ideia abrangente das suas funções. Oficialmente, o antigo primeiro-ministro belga "estuda os seus processos" e percorre as capitais europeias, até à cimeira que convocou, para Bruxelas, a 11 de Fevereiro. Pretende levantar aí as questões sócio-económicas e climáticas, bem como a reconstrução do Haiti. Conseguirá, então, surpreender e distanciar-se da tutela de Paris e Berlim, que patrocinaram a sua entrada em funções? Por seu lado, Durão Barroso teme uma intrusão do presidente do Conselho nos seus domínios. "Está tudo no Tratado: é a Comissão que representa os 27 em todos os domínios que não são da área da política de segurança", insistiu perante os eurodeputados.

A missão de Zapatero : animar os debates

O presidente da Comissão ressente-se da tardia entrada em funções da sua nova equipa, que não se verificará antes de meados de Fevereiro. Mas teve o cuidado de fragmentar as competências em matéria de política externa, sendo Catherine Ashton a sua vice-presidente. Quando a Alta Representante quiser tratar de ajuda humanitária, desenvolvimento ou relações com os Estados vizinhos, haverá três comissários que serão incontornáveis. Além disso, para as reuniões internacionais, Durão Barroso colocou o seu "sherpa", o português João Vale de Almeida, à cabeça da Relex (departamento de Relações Externas), que é uma das componentes do futuro serviço diplomático comum, que Catherine Ashton está encarregada de construir. A atitude da presidência rotativa espanhola, quarta peça do novo xadrez, não facilita em nada.

Madrid não quer ser esquecida e José Luis Rodriguez Zapatero fez com que várias cimeiras, nomeadamente com os Estados Unidos e a América Latina, se realizem em Espanha – e não em Bruxelas como prevê o novo Tratado. Aos visitantes, o primeiro-ministro espanhol explica que a sua missão é animar os debates… presididos por Van Rompuy. No entanto, o Tratado de Lisboa não confere qualquer prerrogativa à presidência semestral. "Preparámos a nossa presidência antes de haver uma certeza quanto à entrada em vigor do Tratado", justifica Miguel Angel Moratinos. O chefe da diplomacia espanhola gostaria de ter sido escolhido para o cargo de Alto Representante e não se coíbe de salientar a discrição do binómio Van Rompuy-Ashton. Para se mostrar indispensável…