Para a maior parte dos checos, a imagem do ocupante russo, que, durante décadas, apoiou pelas armas o ignóbil regime comunista, continua a ser uma recordação bem viva. Há, contudo, motivos de preocupação mais recentes. São os novos russos. Estes vêm de um país que os relatórios dos serviços de informação interna checos incluem na categoria "Espionagem e ameaça para a segurança". As sondagens parecem indicar que os checos começam a habituar-se aos "seus russos". "Aqueles que se fixaram na República Checa pertencem às classes médias. Para eles, aqui é mais barato do que mais a Ocidente", explica Alexei Kelin, antigo membro do Conselho do Governo para as Minorias Nacionais. Kelin afirma que os russos ricos são atraídos sobretudo por Londres e Paris. As estatísticas revelam que metade dos russos que vivem na República Checa é titular de um diploma universitário e que, no conjunto, estes praticam uma parte mínima dos crimes cometidos por estrangeiros e que se estabeleceram como empresários do ramo imobiliário, no comércio de recordações e de vestuário e também na programação informática.

Em 1977, havia apenas uma loja russa e um salão de cabeleireiro em Praga. Segundo o sítio Internet do jornal [em língua russa] Pražskij Express, hoje, haverá 24 lojas que vendem produtos russos, 15 salões de cabeleireiro e 5 antenas de universidades russas e ucranianas. Os russos apoiam-se sobretudo nas ligações familiares. Não têm grande tendência a estabelecer relações com a comunidade. "Setenta por cento da nossa clientela é russa", afirma Iolanta Avanessian, proprietária da loja Arbat. "Mas daí a ser um centro da comunidade… Isso não! As pessoas que aqui vêm fazem compras, pagam e vão-se embora. Não passam a ser amigos." Alexei Kelin declara que os russos "têm tendência a não confiar em nada nem em ninguém".

Relações tensas com Moscovo

Em Praga, não muito longe da estação de metropolitano I.P. Pavlova, ficam as redacções de duas revistas para jovens: a Artek e a Rousskoïe Slovo. Destinam-se "à diáspora russa que vive na República Checa". Anna Chlebinová é uma das redactoras. "Não fazemos política. Somos, antes de mais, uma associação cultural. Mas aquilo que escrevemos e publicamos basta para que as nossas relações com a embaixada russa sejam bastante tensas." Em cima da mesa, está um livro russo. As suas cerca de mil páginas apresentam a descrição, pormenorizada, do destino de artistas, cientistas, militares e médicos russos, que, antes da chegada dos bolcheviques ao poder [em 1948], tinham encontrado asilo na Checoslováquia. Pouco depois, antes de o manuscrito ser enviado para a tipografia, telefonou um representante da embaixada, que exigiu que fossem feitas alterações significativas em capítulos inteiros do livro e ameaçou com a quebra do contrato, em caso de recusa. "Nós escrevemos que, depois da Segunda Guerra Mundial, os serviços secretos soviéticos deportaram para os ‘gulags’ um número considerável dessas pessoas. Era esse o problema", relata Anna Chlebinová. O livro acabou por ser financiado pelo mecenas e presidente da Associação das Tradições Russas, Igor Zolotarev.

Deve ser feita uma distinção clara entre, por um lado, os estudantes e empresários russos "médios" que vivem na República Checa, porque aqui há maior segurança e melhor qualidade de vida do que na Rússia, e, por outro, os representantes das grandes empresas russas controladas pelo Kremlin. "Eu diria que a vinda dos primeiros é uma coisa boa. Eles optaram, livre e conscientemente, por deixar de viver na Rússia actual. Encaram o seu país com um olhar bastante crítico e andam à procura de uma alternativa", observa Mikhail Romancov, que é descendente de emigrantes russos que se opunham aos bolcheviques e professor de geografia política na Faculdade de Ciências da Universidade Carolina. E acrescenta: "Quanto aos segundos, é fundamental ser-se muito prudente. O Estado checo tem razão em os considerar como um risco para a segurança."