Ao ouvir o discurso de Radoslaw Sikorski perante a Dieta [parlamento polaco, a 29 de março], poderíamos acreditar que a Polónia está a tornar-se uma pequena superpotência europeia. Tem uma situação política estável, a Alemanha como parceiro privilegiado, uma sucessão de êxitos no âmbito da União e uma influência cada vez maior no Leste.

Num discurso de uma hora, o chefe da diplomacia não se limitou a fazer a sua autopromoção, mas argumentou também sobre a noção de soberania nacional e sobre a sua visão de uma Europa federal, incluindo citações de Valery, Havel, Kolakowski, Hume, João Paulo II, São João, Wittgenstein e – claro – Sikorski.

Como Sarkozy, a sua impulsividade atraiçoa-o

Em contrapartida, não fez referência a Nicolas Sarkozy. O ministro polaco não é fã do Presidente francês. Longe disso. O facto é que os dois homens têm mais do que uma característica em comum. Tanto um como o outro são hiperativos que multiplicam iniciativas, cujos resultados são muito modestos.

São profissionais, mas a sua impulsividade por vezes atraiçoa-os. Umas vezes sedutores pela sua amabilidade, outras, surpreendentes pela sua indelicadeza.

Ambos são tão capazes de descrever visões políticas de grande alcance, como de usurpar para si os resultados de um trabalho coletivo. Não se inibem de criticar os outros, mas não suportam ser criticados.

Na verdade, não se pode culpar de inércia o ministro Sikorski, ele que – por assim dizer – reconstruiu o Ministério dos Negócios Estrangeiros, depois da saída de Anna Fotyga [ministro em 2006-2007], modernizando a política externa em relação à época de Bronislaw Geremek [ministro de 1997 a 2000].

Sikorski é omnipresente, mas o poder da Polónia na cena internacional, dependente de fatores externos e não controláveis, não parece crescer ao mesmo ritmo que a energia do nosso ministro.

No entanto, este mantém a fé nas suas capacidades e, evidentemente, tem dificuldade em reconhecer os seus limites. Assim, ao avaliar o impacto do seu "discurso de Berlim," (discurso intitulado “Poland and the future of the European Union” – A Polónia e o futuro da União Europeia – pronunciado em Berlim em 28 de novembro de 2011), sugeriu que foi a sua intervenção que provocou o recuo da posição da Alemanha sobre o papel do BCE no resgate dos bancos, e até que influenciou a escolha de Joachim Gauck para a presidência alemã. Nada mais, nada menos!

Um discurso desprovido de lucidez

Exatamente como Sarkozy, Sikorski tem momentos de glória. De facto, o discurso de Berlim deu voz à presidência polaca da UE, o que não acontecia anteriormente.

No entanto, o melhor pode ombrear com o pior, quando alguns comportamentos do ministro nos deixam literalmente sem palavras. Para citar apenas um dos exemplos mais recentes, a saber, a sua "intervenção diplomática" no Hotel Adlon em Berlim, reagindo à ausência de canais polacos na oferta televisiva do hotel.

Quando, por uma tal razão, o ministro recebe uma comunicação oficial e, de seguida, festeja no Twitter, deixa supor que este é, para ele, o significado da diplomacia. Mas não passaria de um mal-entendido.

Seria preferível que o ministro deixasse que fossem os outros a elogiar a sua política, contentando-se em definir qual será a dimensão do seu sucesso nos próximos meses. Como ele mesmo declarou, "precisamos de uma avaliação pragmática do nosso potencial e das possibilidades que temos para agir".

O seu discurso foi, portanto, desprovido de lucidez. E por recear que a Polónia venha a ter uma surpresa desagradável, por exemplo uma redução considerável dos fundos que lhe serão atribuídos no próximo orçamento comunitário, em relação às suas expectativas, a publicidade de futuros sucessos vai virar-se contra o seu criador.

Recordamos que o Presidente Sarkozy também apresentou visões do futuro muito sedutoras, que nunca soube concretizar. Hoje está a pagar um preço elevado por isso.