Em França, percebe-se que um autóctone atravessa uma fase emocional delicada quando diz: “Ça me saoule” – é coisinha para dar cabo dele e não necessariamente porque o tenha levado a meter-se nos copos. Algo, ou alguém, pode também “lui taper sur le système” (abalar-lhe o sistema), “lui courir sur le haricot” (pisar-lhe os calos) ou simplesmente “le gonfler” – eles “incham” de raiva, com a mesma facilidade com que os portugueses ficam “em brasa”. Se lhe ouvir mimos como “couilles”, “burnes” ou “cul”, esqueça… mas passe adiante, porque é evidente que o está a importunar, ó chouriço. No Porto, a tradução era directa e sem problema, contendo no mínimo um “seu caralho”, sem consequências de maior; a fúria por trás do impropério é que poderia não ser tão inconsequente, lá como cá.

Mas isto é tudo fama, pois os comparsas europeus não são muito mais serenos! Todos, na Europa, acabam por perder o “sangue-frio” e ficar piurços sem que entendamos sempre do que falam. Alguns fazem-no com humor, o que tem mais encanto. Veja-se os alemães, por exemplo. Se utilizarem a expressão “jemanden zutexten”, o alvo das atenções é você mesmo: cale-se imediatamente! Isso significa que o germano já está pelos cabelos e não aguenta mais o blablablá com que lhe enche os ouvidos. Que o mesmo é dizer que lhe “mastiga nos ouvidos” (“jemanden das Ohr abkauen”), e ele, não tarda, “passa-se”.

E se quer um conselho de amigo, não provoque muito os polacos. Porque, quando se zangam, assalta-os “uma fúria de sapateiro” – “doprowadzać do szewskiej pasji” – e a sensação com que se fica é de que há melhores lugares para mandar consertar os sapatos do que na Polónia... Atingidos de apoplexia (“szlag mnie trafia”) é dizer pouco – a raiva põe-nos mesmo doentes. Ora quando um polaco empalidece, está tudo lixado, porque considera ter sido atacado por “uma febre branca” (“doprowadzać do białej gorączki”), sintoma inequívoco de uma irritação do piorio.

Muita atenção ao interlocutor, que em Espanha a cor muda por completo! Não meta os pés pelas mãos: é quando um espanhol manifesta “estar negro” que há que pôr-se a milhas, porque já alguém passou das marcas e começa a atingi-lo na corda sensível, que o mesmo é dizer “a tocar las pelotas”.

Claro que há quem precise de estímulos de adrenalina, goste de correr riscos e se divirta a fazer os outros “afinar”. Não diga é que não foi avisado!

Jane Mery