Se as próximas eleições reduzirem a fragmentação dos partidos políticos e o êxodo dos eleitores para a extrema-esquerda e para a extrema-direita, os efeitos da crise que a Holanda atravessa atualmente poderiam acabar por revelar-se benéficos.

No entanto, só um otimista incorrigível poderá considerar real essa possibilidade. Infelizmente, os indícios mais recentes não auguram nada de bom. Nada indica que haja perspetivas de constituição de uma coligação politicamente sólida e coerente, após as eleições. Pelo contrário: o mais provável será uma recrudescência da fragmentação e da instabilidade.

Na última década, a Holanda teve cinco Governos. E, durante esse período, o centro quase desapareceu. Na verdade, os três principais partidos anteriormente dominantes – o PvdA [Partido do Trabalho], o CDA [democrata cristão] e o VVD [liberal] – talvez nem sequer venham a conseguir obter maioria na Câmara Baixa do Parlamento.

A UE como fonte de todos os males

Entretanto, porém, também vimos despontar fugaz raio de esperança. Por exemplo: na declaração emitida no sábado [21 de abril], para explicar o seu comportamento estranho, nas recentes negociações em Catshuis [a residência do primeiro-ministro], Geert Wilders afirmou que a UE é a origem de todos os males. Em seu entender, Bruxelas pressionou o Governo minoritário [CDA-VVP-PVV] a negociar novas medidas de redução da despesa.

O facto de a declaração de Wilders ser obviamente um disparate não quer dizer que não tenha importância. O PVV [Partido para a Liberdade, populista] fez da UE o bode expiatório, contra o qual pretende conduzir uma campanha dura, nos próximos meses.

Tendo em conta a filosofia do PVV, esta pareceria ser uma estratégia absolutamente lógica. Este partido, que reúne uma anómala mistura de princípios – de extrema-direita na sua posição quanto às questões sociais, de esquerda na defesa que faz dos vestígios do Estado-providência holandês – parece ter escolhido o adversário principal: Bruxelas.

É Bruxelas que insiste, por exemplo, em que respeitemos os acordos sobre a livre circulação de trabalhadores. E o PVV considera esses trabalhadores como uma ameaça à pureza da sociedade holandesa e, também, ao Estado-providência.

Geert Wilders parece ter chegado à conclusão de que poderá ser mais fácil mobilizar o seu eleitorado contra a UE, do que contra a islamização da Holanda. Por qualquer (estranha) razão, o futuro da Holanda na Europa nunca foi o tema central das campanhas eleitorais, desde o referendo [a rejeição, em 2005, do tratado constitucional europeu]. Contudo, Wilders mostra-se agora decidido a impô-lo e esperemos que seja bem sucedido.

Reforço da cooperação europeia

Afinal, nas questões relacionadas com a Europa, as divergências de posições entre as forças políticas são diferentes das divergências de posições sobre questões clássicas como a economia (nacional). Nesse campo, a divisão clássica entre esquerda e direita quase caiu no esquecimento.

Quando a pergunta fundamental é o que queremos da "Europa", surgem outras controvérsias. E chegou a altura de dar destaque político a essa questão. Além disso, o tema proporciona a oportunidade de alteração radical das relações de força na cena política.

Naturalmente, Wilders tem em mente uma oportunidade para si próprio. Contudo, não há motivo para os outros partidos não aceitarem o desafio e mostrarem que o único caminho a seguir pela Holanda consiste no reforço da cooperação europeia. Seria igualmente uma boa oportunidade o centro do espectro político recuperar uma posição de peso, contribuindo assim para a tornar o país governável.