Copiar pelo colega do lado, aprendemos na escola, é um meio eficaz para ser bem sucedido. Desde que praticado com mestria. A regra número um é evitar ser apanhado. A regra número dois é confessar imediatamente, quando se é apanhado. Neste jogo, Helene Hegemann é uma aluna exemplar.

Eis o que se passou. Helene Hegemann, de 17 anos, publicou recentemente o seu primeiro romance, “Axolotl Roadkill”. Uma obra feroz e impetuosa, sobre a passagem para a idade adulta. Desde a publicação, as críticas declararam-na genial. Que linguagem! Que segurança de estilo! Que radicalidade! E todas aquelas observações pertinentes, aquelas reflexões inesperadas! Eis uma estreia como há muito não se via, entusiasmou-se um meio literário sequioso, em êxtase.

Três linha de "speed" nos lavabos

Os que se interessam não pela literatura mas pelo que dá brado ficaram também emocionados: produzir uma obra destas aos 16 anos? É de se lhe tirar o chapéu! Tomou-se o romance por um relato autêntico, assumindo-se que tudo o que lá vinha sobre droga, sexo e puberdade teria sido vivido por Helene H. “Axolotl Roadkill” é verdadeiramente impressionante. Terá ela estado realmente no Berghain, a "melhor discoteca do mundo”, com uma reputação infernal, cuja entrada oficial é estritamente proibida a menores de 21 anos? Snifou de facto "três linhas de speed" nos lavabos? Parece inacreditável.

Na verdade, a personagem Mifti, de 16 anos, é uma criação de Helene Hegemann. Mas a maior parte dos leitores não conseguiu evitar a identificação com a própria Helene. E quando se fala em pai, no livro, todos pensam em Carl Hegemann, reputado dramaturgo com trabalho regular no Volksbühne [famoso teatro berlinense]. Quando Mifti faz amor sem amor num automóvel, filosofa sobre a bissexualidade e se lastima numa "atitude de megerazinha desdenhosa", tem-se a impressão de escutar a verdadeira Helene. “Axolotl Roadkill” joga deliberadamente com essa impressão cativante de autenticidade. E o romance é bem hábil nesse jogo! Helene Hegemann, menina-prodígio e nova estrela do firmamento literário.

Escrevo logo plagio

Mas eis que vem o blogue cultural gefuehlskonserve.de e desvenda que Helene Hegemann plagiou várias obras. “Strobo”, sobretudo. Um romance que fala de sexo, de droga e do Berghain, lançado no ano passado pela pequena editora berlinense SuKuLTuR, da autoria da bloguista Airen, nascida em 1981. Helene Hegemann foi-lhe buscar fórmulas engraçadas como "tecno-plasticidade" ou "mamas vaselinadas", bem como frases inteiras e situações.

Helene Hegemann pediu desculpa. Sabia que não era correcto "não citar todas as pessoas que me ajudaram a escrever este texto". Texto que defende, no entanto. Porque "de qualquer modo, a autenticidade não existe, apenas a sinceridade". Além disso, diz ser apenas uma sublocatária do seu espírito: "Utilizo tudo o que encontro que me estimule e possa servir de inspiração".

O clube dos poetas virtuais

O escândalo em torno do “caso Hegemann" resulta sobretudo de um reflexo: considera-se que a aura da autenticidade não é permeável ao plágio. Ora, em “Axolotl Roadkill”, não se percebe a diferença entre ficção e realidade. Helene Hegemann faz parte daquele "clube dos poetas virtuais" tratados em “Strobo”: "Fazemos parte de um enredo que, de vez em quando, resvala para a ficção. É uma coisa completamente esquizofrénica."

A estrutura teórica desta arte híbrida foi, aliás, desenvolvida por Carl Hegemann: "Uma determinada realidade não pode ser achada, apenas ser-nos trazida pelos 'membros' de uma cultura". Neste sentido, Helene Hegemann fez o que sabe melhor: criou uma existência de personagem de romance, rapinando aos outros.