Talvez seja preciso recordar alguns pormenores, agora que se iniciou a contagem decrescente para as eleições legislativas. E, em particular, o livro do norte-americano Robert Paxton, O fascismo em ação [Anatomia do fascismo]. De há 50 anos a esta parte, sensivelmente, este historiador estuda o fascismo tendo por referência o regime de Vichy, em França. Conheci-o pessoalmente em 2010.

Nessa época, já a escalada dos extremismos na Grécia (que não era caso único) era percetível e tema de debate. “Em período de crise económica, a democracia é posta em perigo”, disse então. Para Robert Paxton, “os novos grupos fascistas são violentos mas, ao mesmo tempo, demasiado fracos para influenciarem a vida política”.

Face a este comentário, podemos colocar novamente esta questão em relação à Grécia. O que pode a extrema-direita esperar mais do que a entrada de um grupo violento no parlamento? Esta pergunta não se refere a um debate sociopolítico conjuntural mas à realidade. Não nos podemos esquecer que, há cerca de dois anos, o Chryssi Avgi [Alvorada Dourada], partido de extrema-direita extraparlamentar, acusou bem alto a União Popular Ortodoxa (LAOS), partido de direita ultra conservador (com assento parlamentar desde 2007), de aceitar compromissos e de ter “vendido” os valores patrióticos. Hoje, está prestes a fazer a sua entrada no parlamento.

Água ao moinho dos neonazis

“Quando os partidos de extrema-direita alcançam reconhecimento, levam o debate político na sua direção”, acrescentou Robert Paxton. E tomando uma vez mais a França como exemplo: Nicolas Sarkozy fez suas as ideias de extrema-direita e atacou os ciganos no verão de 2010. Dois anos mais tarde, somos obrigados a reconhecer o regresso da Frente Nacional (FN) à cena política francesa, confirmado pelos resultados obtidos na primeira volta das eleições presidenciais. E a FN continua a dar que falar: as legislativas francesas vão ter lugar na sequência das presidenciais.

Em Atenas, a situação é igualmente inquietante, mas por razões distintas. O partido de centro-direita, Nova Democracia (ND) integra nas suas fileiras um dos elementos mais duros da extrema-direita, Makis Voridis, ministro dos Transportes, e conta com o seu precioso apoio. Note-se que a popularidade de Makis Voridis não se deve apenas às posições que tem tomado enquanto ministro, mas à nossa sensibilidade em relação a determinados traços da sua personalidade: somos seduzidos pela sua retórica, pelas suas maneiras, pelo seu estilo e esquecemos a noção de homem público. E aqui estamos hoje prestes a discutir a provável entrada dos neonazis no parlamento…

Por fim, uma palavra sobre a esquerda grega, com parte de responsabilidade na ascensão dos extremismos. De facto, a extrema-esquerda levou a cabo ações violentas, mas é preciso frisar esta tendência para o angelismo em relação aos imigrantes, ao passo que os habitantes dos guetos abandonados pelo Estado foram diabolizados. Tudo isto levou imensa água ao moinho dos neonazis.