Hoje, celebra-se o Dia da Europa. Quer dizer, celebrar... Os eurófilos de credo mais romântico têm a bandeira azul com estrelas amarelas pendurada na varanda, mas deve ser o máximo que vamos ter em matéria de espetáculo. Os únicos fogos de artifício que vão ser vistos são os dos mercados financeiros. Ou nas salas de negociação gregas, onde se debate a quase impossível tarefa de organizar uma coligação.

Em 9 de maio de 1950, o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Robert Schuman, apelou à reconciliação entre a França e a Alemanha. Nasceu a integração europeia, Bruxelas deu o nome de Schuman a uma praça e 9 de maio tornou-se oficialmente o Dia da Europa.

Contudo, nos dias de hoje, quando se fala de Europa, é apenas em termos de crise e de desgraça. As eleições da semana passada em França e na Grécia apenas reforçaram o sentimento negativo. Qualquer observador suspeita que, depois de um Merkozy, é improvável assistir-se a um Mer-lande e mais a uma Mer-de. A Grécia… bem, deixemo-la afundar-se no Mediterrâneo.

Nem tudo está em ordem

Há mais de dois anos que vimos sendo bombardeados por um fluxo ininterrupto de tristeza e abatimento. No entanto, o euro continua a existir, um euro que vale muito mais do que quando foi lançado. Até os gregos ainda continuam a participar nele. Centenas de milhares de milhões de euros têm alimentado fundos de emergência e o BCE já injetou um bilião de euros na economia. Os países estão mais atentos do que nunca ao que se passa com os vizinhos. Nunca as negociações dos orçamentos, na Bélgica e noutros lugares, foram tão influenciadas por "o que a Europa exige" ou "o que a Europa não vai permitir".

Isso não significa que esteja tudo em ordem. Longe disso. Quando partidos assustadores ganham influência a cada eleição, quando o desemprego juvenil chega quase a 50% em alguns países, quando as pessoas se suicidam porque não aguentam mais viver com a austeridade, então é porque a Europa tem certamente um grande problema.

Um olhar sobre a estratégia europeia para a crise do euro não proporciona qualquer alívio. As medidas tomadas foram sempre um pouco demasiado tardias, um pouco demasiado vagas ou demasiado limitadas. Lenha para a fogueira dos críticos, que lamentam a falta de verdadeiros dirigentes. Alguns acreditam que a incapacidade em pegar o touro pelos cornos tem feito mais mal do que bem. Só soluções radicais podem ajudar a evitar a União de... bem, de quê, afinal? Implodir? Há cada vez apelos mais clamorosos para começar tudo de novo, para se abrir uma página em branco. Para começar, a Grécia deve ser retirada do euro. É fácil encontrar soluções num gabinete.

Um siamês com 27 cabeças

Ao fim de sessenta e dois anos, fundimo-nos em algo que é difícil separar. Tornámo-nos um siamês com 27 cabeças, em que as funções vitais estão interligadas. Consequentemente, os políticos europeus não se mostram propensos a recuar. O preço por rodarmos sobre os calcanhares é geralmente elevado ou acompanhado de incerteza. É o que distingue os treinadores de bancada dos políticos com sentido do dever.

Estes últimos receiam aventuras insanas, como uma completa rutura do euro. Seria possível dividir a zona euro de maneira adequada, sem causar ondas, com cinco minutos de coragem política. O mundo inteiro poderia também sentir os abalos. Não sabemos, já que os economistas se contradizem uns aos outros.

Isso torna a política europeia indigesta e pegajosa: mal uma decisão é tomada, fica colada, não sai mais. As decisões posteriores são construídas com base nos acordos anteriores. A página nunca volta a ficar em branco.

Começar do zero não é possível, mas introduzir acertos é. E não é apenas possível, é essencial. Os últimos meses deixaram claro que é necessário fazer uma mudança de rumo. A velocidade a que os dirigentes políticos estão a ser afastados não tem precedentes. A austeridade não permite ganhar eleições e está a ficar claro que a austeridade só por si não vai salvar a economia.

A União tem de dar à população, a começar pelos gregos, alguma perspetiva de futuro. Essa deve ser a agenda para a próxima cimeira, dentro de duas semanas.