Uma vaga de mal-estar laboral e social está a crescer por toda a Europa, com os trabalhadores a resistirem às tentativas dos governos e das empresas privadas de imposição de políticas de austeridade, com descidas dos salários e recuperação de alguns países da quase bancarrota. Enormes manifestações de protesto ocorreram por toda a Espanha, ontem à noite; hoje, uma greve geral pode paralisar a Grécia, ao mesmo tempo que os trabalhadores dos aeroportos e empresas petrolíferas franceses ameaçam ir para a greve, tal como a alemã Lufthansa, no que promete ser apenas o início da maior demonstração de mal-estar público a que se assiste no continente desde o fervor revolucionário de 1968. A economia industrial europeia ainda não se livrou da recessão. E com o desemprego a subir e as exigências de austeridade a aumentar, os trabalhadores estão a ficar cada vez mais intolerantes.

O combativo gigante automóvel Fiat interrompeu abruptamente a produção em todas as suas fábricas italianas, esta semana, suspendendo 30 mil pessoas por duas semanas, e esperam-se mais encerramentos para o próximo mês. Há, entretanto, sinais de que a confiança está a ceder ao peso da persistente descrença dos meios de comunicação quanto à resolução da crise grega. O governador do Banco de Inglaterra, Mervyn King, expressou a sua preocupação em que a recuperação europeia tivesse “estancado”, uma evolução com repercussões negativas para a economia britânica. A tão temida "recaída na recessão" parece tornar-se inevitável.

A contestação é mais sonora na Grécia, onde tem havido greves espontâneas e protestos clamorosos contra os esforços do primeiro-ministro Georges Papandreu para controlar o lacerante défice orçamental grego, o maior da Zona Euro. Manifestantes apoiados pelo Partido Comunista tentaram bloquear ontem a Bolsa de Atenas e os grevistas vão paralisar hoje as redes de transporte aéreo, ferroviário e marítimo, inconformados com os cortes draconianos nos apoios sociais. A reacção provocará igualmente a paralisação das escolas, da Função Pública e dos tribunais, com reflexos nos bancos, hospitais e empresas públicas. Numa atitude tragicómica, os inspectores dos impostos da Grécia entraram também em greve contra as tentativas governamentais para recomposição das finanças.

Agora a Espanha, outro elemento dos chamados PIIGS – o grupo de nações altamente endividadas, formado por Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha –, enfrenta igualmente uma resistência acirrada às tentativas do Governo de Zapatero para encarrilar as finanças públicas do país. Muitos observadores temem muito mais uma crise orçamental espanhola do que a grega, uma vez que a economia espanhola é cerca de cinco vezes maior e até os recursos dos membros mais ricos da Zona Euro, principalmente da Alemanha, podem ser insuficientes para a salvar.

Em Madrid, Valença e Barcelona, as manifestações da noite passada opuseram-se ao plano para elevar a idade da reforma para os 67 anos de idade. Os protestos vão espalhar-se ao resto do país durante esta semana. Só pode esperar-se que os problemas económicos da Espanha sejam ainda mais ingovernáveis que os da Grécia. A economia espanhola foi alimentada por uma bolha do imobiliário durante os anos de crescimento. A queda subsequente foi mais drástica do que no resto da Zona Euro, inclusivamente na Grécia. Os números revelam que a Espanha ainda não saiu da recessão, e enfrenta um custo social e económico de 20% de desemprego e uma taxa de 35% entre os jovens, a mais elevada da Zona Euro.

Assim, a Irlanda, a Grécia, a Espanha e vários outros países estão a passar por aquilo a que os economistas chamam eufemisticamente “desvalorização interna”, reduzindo salários e custos e, se necessário, permitindo que o desemprego atinja valores recordes. O problema levantado, entre outros, pelo prémio Nobel da Economia Joseph Stiglitz, é que as políticas deflaccionárias ameaçam penalizar ainda mais as economias, provocando uma crise orçamental muito mais dramática, dado que as receitas de impostos caem abruptamente e os subsídios de desemprego disparam.