Nunca tinha partido para tão longe, disso não há dúvida. E, no entanto, dada a sua profissão, Florence Aubenas está habituada a percorrer grandes distâncias: ser repórter é isso mesmo, partir. Em 20 anos, trabalhou para vários jornais (o Libération e, agora, Le Nouvel Observateur). Andou por subúrbios difíceis e países em guerra, por esquadras, tribunais ou fábricas em greve. Curiosa, forte, impaciente. Ao ponto de pagar um preço alto: um dia de 2005, em Bagdade, foi sequestrada e mantida prisioneira, na companhia do seu acompanhante iraquiano. Deste difícil e longo cativeiro (157 dias) saiu com uma grande dignidade e uma certa notoriedade.

Agora, porém, a jornalista não apanhou o avião. Para onde ia, não valia a pena: Caen, a duas horas de Paris, que o mesmo é dizer na porta ao lado. Foi nesta cidade, contudo, que se sentiu mais afastada de tudo, em termos humanos e profissionais. Durante quase seis meses, Florence Aubenas transformou-se na “senhora Aubenas", de 48 anos, sem qualificações específicas – desempregada como tantos, dezenas de pessoas que não a reconheceram. Dia após dia, mergulhou na multidão informe dos que procuram emprego, dos que vagueiam de um contrato a termo desqualificado para um trabalho mal pago. É uma massa de gente para a qual é evidente que não vai haver trabalho, apenas umas "horas" aqui e ali, e mesmo isso, com sorte.

Quando lhe ocorreu fazer essa experiência, Florence Aubenas leu vários livros sobre o processo de imersão no meio, a começar por Cabeça de turco (Editora Globo, Rio de Janeiro, 1989), de Günter Wallraff, o mais famoso de todos. Na altura, interrogou-se sobre a eficácia dessa prática jornalística. Um artigo pode contribuir para alterar o estado das coisas? "Diziam-nos: é a crise, vai engolir tudo. E eu, sentada na minha secretária, sentia-me desorientada: o real escapava-me. Desde que entrei para o mundo do trabalho, a crise existiu sempre, ao mesmo tempo omnipresente e intangível. Não percebia."

À tona da água, na pele de uma desempregada

Daí a decisão de partir para Caen, onde se inscreveu no centro de emprego e fez a vida de quem procura emprego, para "contar essa França que não consegue vingar". Ia fazer o seu trabalho, mas com mais tempo e mais profundidade, logo, de forma mais esclarecedora. Não ia abordar as pessoas com um bloco na mão, mas "fazer parte delas, com todas as limitações que isso implica". Queria pôr-se na pele de desempregada, porque "nem tudo passa pelas palavras. Queria ultrapassar a barreira do discurso: viver no meio evitava a tentação de, por exemplo, me dirigir antes de mais às pessoas que se expressam com fluência, como teria feito enquanto jornalista".

Quando partiu, previra permanecer até ao momento em que conseguisse um contrato a termo certo. Quatro meses pareciam-lhe um prazo razoável. Uma vez mudada, foi necessário baixar bem a fasquia. "Demorei mês e meio a conseguir". O tal trabalho? Não, claro: um magro número de horas, nas duas pontas do dia, no barco que faz a travessia da Mancha e em escritórios, parques de campismo e prédios. De início, tomava notas todas as noites; depois, apenas dia sim dia não, devido ao cansaço. "Quanto mais o tempo passava, mais aquilo parecia um diário íntimo. Ao fim de um mês, desespera-se. Já não era alguém que via a situação de fora, mas antes uma pessoa que perdeu o controlo e tenta manter-se à tona."

Ocorreu-lhe a sua experiência de refém? Não, nem por isso. Mas julga provável que "sem esse cativeiro, nunca tivesse tido o arrojo de fazer o que fiz". Enfrentar o receio de ser desmascarada, o medo do ridículo (de passar pela "irmãzinha dos pobres"), mas sobretudo sentir "a liberdade em relação ao passar do tempo, essa matéria tão preciosa para um jornalista". O tempo do desempregado, feito de esperas e mais esperas, de transportes infindáveis (e não remunerados) para lugares onde se vai trabalhar uma hora, esse tempo ela não tinha a mais pequena ideia que existisse, antes de ficar presa nele.

Florence Aubenas não conseguiu resolver-se a cancelar o arrendamento do seu quarto em Caen. Foi nesses poucos metros quadrados, alugados por 348 euros por mês, que escreveu boa parte do seu livro [Le Quai de Ouistreham – O cais de Ouistreham]. Quando para lá foi, tinha decidido utilizar o dinheiro que ganhou com o seu livro sobre o processo de Outreau (La Méprise – O desprezo) [processo judicial por abuso de menores, que pôs a nu o mau funcionamento da justiça francesa].

"Tinha posto esse dinheiro de lado, era sagrado: achava que não podia ir-me pôr a comprar carro com o dinheiro do caso de Outreau!" Acabou por valer-se dele: nunca, em seis meses de trabalho obstinado, conseguiu ganhar o suficiente para sobreviver. Mesmo muito modestamente.