Uma das primeiras iniciativas do primeiro-ministro grego, Giorgos Papandreou, após a vitória eleitoral de Outubro passado, foi convidar o arquitecto catalão Josep Acebillo a ir a Atenas. Este gesto era um testemunho da vontade do novo Governo socialista de modificar o modelo de desenvolvimento urbano desastroso que, depois das esperanças suscitadas pelos Jogos Olímpicos de 2004, tinha voltado aos maus hábitos anteriores: especulação, corrupção na atribuição de licenças e invasão dos automóveis.

Cinco meses depois, depois do lançamento de um plano de austeridade draconiano exigido pelos líderes europeus para evitar o incumprimento da dívida grega, é óbvio que não vai sobrar nem um cêntimo para levar a bom porto este projecto. Uma mancha imensa de betão branco entre montanhas calcinadas: Atenas é a cidade europeia com menos espaços verdes. Antes da crise, já tinha muitos desafios pela frente, entre os incêndios florestais que destruíram os arredores e o descalabro do centro da cidade. Hoje, está a pagar por anos de orçamentos públicos insuficientes e de penúria financeira no sector imobiliário. "Vamos ter de fazer intervenções que não envolvam dinheiro, como a acupunctura", lamenta Andreas Kourkoulas, arquitecto do novo museu Benaki.

Os carros devoraram a cidade

Esta situação é partilhada por muitas cidades da periferia da Europa, onde, há 40 ou 50 anos, se registou uma urbanização demasiado rápida. Trata-se de um objectivo que está longe de ser simples. Paradoxalmente, porém, segundo Yanis Pyrgiotis, do serviço público de planificação urbana, será talvez a oportunidade para recuperar o espírito cívico que se manifestou de forma efémera antes dos Jogos de 2004.

A grande prioridade é a "guerra aos automóveis", recorda Kourkoulas. A primeira consequência dos anos de consumo desenfreado e de endividamento dos particulares foi Atenas ser devorada pelos carros. A Grécia é o país da OCDE onde o parque automóvel mais se desenvolveu nos últimos 15 anos. Entre 1993 e 2006, o número de automóveis por 1000 habitantes aumentou 118%, contra 40% em Espanha e 24% na Alemanha, segundo números da OCDE. Quase não se vêem bicicletas no centro de Atenas e os bairros estão afogados em carros estacionados.

"Na Grécia, são as mentalidades que precisam de ser mudadas"

Apesar de tudo, a época de austeridade teve alguns efeitos positivos, garante Pyrgiotis: "Suspendeu-se a construção de estradas e túneis que iriam favorecer ainda mais o prolongamento da cidade para os campos". Os arquitectos esperam que, uma vez contida esta mancha invasora, haja mais gregos da classe média a instalar-se no centro, onde começam a registar-se grandes concentrações de imigrantes com baixos rendimentos. Mas, "para isso, temos de combater a degradação do espaço público no centro", sublinha.

Com quase 5 milhões de habitantes – metade da população grega –, Atenas dispõe apenas de 2,5 m2 de espaço verde por habitante, ou seja, um quarto da superfície existente na Europa Central e Setentrional. Nestes tempos de vacas magras, Kourkoulas propõe como solução "transformar as ruas em jardins lineares, passá-las a pedonais, arranjar espaços onde se possa tocar música". Mas acrescenta: "Isso será impossível, se não retirarmos os veículos estacionados nas ruas e em cima dos passeios".

Nas montanhas dos arredores da capital, foi proibida a construção para além dos actuais limites, para conseguir conter os incêndios que se suspeita terem sido fogo posto, para abrir caminho aos promotores imobiliários. "Hão-de ver torres de luxo construídas depois dos incêndios de 2007", salienta Pyrgiotis. Uma coisa é certa: "Na Grécia, não basta aprovar uma nova lei, para mudar as coisas. E preciso mudar a cultura", insiste Yiannis Panaretos, vice-ministro da Educação. Contudo, a vantagem da cidade com os cofres vazios é que os especuladores também estão sem dinheiro.