Em vésperas da cimeira da UE de 28 e 29 de junho, o economista grego Yanis Varoufakis frisou a teimosia de vistas curtas das decisões políticas com que os governos da União procuram salvar a moeda única e manifestou-se surpreendido com a confusão de intenções e resoluções: uma expectativa quase messiânica de uma solução miraculosa, conjugada com a incapacidade de ação dos políticos, a preguiça mental dos economistas e uma avassaladora ausência de liderança.

Mais uma vez, estamos em vésperas de uma cimeira descrita como crucial. Haverá um antes e um depois; vamos decidir grandes coisas, caso contrário, inevitavelmente, será o fim. Alguns dedicam-se a contar os minutos: o euro não vai viver mais três meses, segundo eles, mas convencidos de que o relógio está parado. Há anos que a sua esperança de vida é, invariavelmente, de três meses. Foi isso que levou Yanis Varoufakis a fazer duas comparações históricas, qual delas a mais assustadora.

Disco riscado

A primeira com a crise de 1929 e o Presidente Herbert Hoover, cuja receita era a mesma preconizada hoje: a redução drástica dos gastos públicos, corte nos salários e no poder de compra. Tudo isso enquanto a economia dos EUA implodia. As consequências foram a pobreza, a ira dos norte-americanos e o fim da democracia na Europa.

A comparação com a Guerra do Vietname nas décadas de 1960 e 1970 não é menos preocupante. Os homens do Pentágono já estavam certos da derrota. Mas continuaram a lançar, freneticamente, bombas sobre o Vietname, porque não conseguiam chegar a um acordo sobre como pôr fim a esse tipo de recurso, manifestamente catastrófico.

Admitir o erro e mudar de rumo teria salvo milhares de vidas norte-americanas, centenas de milhares de vidas vietnamitas e economizado muito dinheiro. Derrotas semelhantes a esta foram descritas como "estranhas" pelo historiador Marc Bloch: em 1940, os Estados-Maiores político-militares careciam de visão e de liderança, enquanto, na retaguarda, a sociedade e as classes dirigentes soçobravam.

Os atuais chefes da Europa sofrem da mesma falta de determinação: a crise da banca e da dívida soberana não é uma guerra militar, mas tem reflexos idênticos. E o pobre cidadão comum perde a cabeça e não entende nada.

Há meses que se sucedem cimeiras, a dois, a quatro, a 17, a 27. E cada uma é descrita como decisiva. Há meses que entram e saem de cena personagens que proclamam resoluções inabaláveis. A chanceler alemã, Angela Merkel, e o seu ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble, entram na sala do Conselho da Europa, sentam-se e recitam: "Não pode ser. Antes de falarmos de solidariedade, cada um tem de fazer uma limpeza no seu país." Há sempre alguém, da periferia Sul da Europa que, em vez de negociar seriamente, implora: "Mas façam um esforço, estamos a entrar em colapso!". Parece um disco partido. Sentam-se à mesa e repetem-se, repetem-se, como os generais que continuaram a despejar bombas sobre o Vietname, na esperança de que a guerra, como os mercados, se acalmasse por si, por exaustão.

Um poder de técnicos que censuram e punem

Algo, de facto, se agita na Europa. Graças à pressão dos social democratas e dos Verdes, o Governo liberal-conservador alemão admite, de repente, fazer qualquer coisa pelo crescimento: palavra vazia, como quando os generais em guerra diziam: "A paz". Na reunião a quatro, realizada em Roma – entre Angela Merkel, François Hollande, Mario Monti e Mariano Rajoy –, foi decidido mobilizar 130 mil milhões de euros, soma considerável mas esporádica, já que, ao mesmo tempo, foi rejeitada uma proposta de aumento do orçamento comum europeu. Foi igualmente decidido – finalmente – ignorar as reservas britânicas e suecas sobre taxação das transações financeiras, que foi aprovada e deve dar um pouco de fôlego à zona euro: a receita esperada é de 30 a 50 mil milhões por ano, sem encargos para os contribuintes.

Registaram-se progressos, garantem os governos, mas falta o essencial: ainda não podemos emitir “eurobonds” [títulos de obrigações europeias] e Berlim está relutante em relação ao projeto de resgate parcial da dívida soberana – avançado em novembro pelo conselho alemão de especialistas em Economia. "Precisamos de dar o salto federal", começam a murmurar; mas também estas palavras, como "crescimento" ou "paz", são suscetíveis de perder sentido. Resta apenas o dogma alemão da casa em ordem e, com ele, o novo poder de controlo dos orçamentos nacionais, dado à Comissão de Bruxelas. Mas é um estranho poder, de técnicos que censuram e punem. Não é um poder que põe em prática políticas fiscais, dispõe dos seus próprios recursos, é contrabalançado democraticamente.

Fim da corrida no fundo da ravina

O facto é que as medidas não são suficientes, porque o mal não é técnico, mas político. Habituámo-nos a descarregar as culpas sobre os mercados, dizendo que a Europa não deve depender da sua miopia. Mas já lhes demos ouvidos, a esses mercados? São imprevisíveis, mas desconfiam das nossas panaceias, o que significa que, por trás das suas dúvidas, existe outra questão: "Tencionam realmente salvar o euro?". E: "Querem realmente a tal união política com que estão sempre a acenar, mas pela qual continuam sem mexer uma palha?"

Se os mercados são como uma matilha de cães excitados, é porque sentem que a Europa e a Alemanha não querem tomar o poder e escolhem a insignificância à escala global. Só se acalmarão perante um plano com prazos específicos – é importante apresentar um calendário –, um plano que inclua um fisco europeu, um orçamento europeu credível, o controlo do Parlamento Europeu, um banco central idêntico à Reserva Federal norte-americana, uma política externa única. Têm razão em insistir. Porque desta vez não temos a América do pós-guerra para promover a federação europeia. Obama só exige medidas de meias tintas à Europa, em vez de um grande projeto unitário.

O salto federal é necessário, poucos o querem dar. Hollande diz que a união política desejada por Berlim só é aceitável se houver – e rapidamente – solidariedade. Angela Merkel não exclui a solidariedade, mas exige primeiro a união política. Há um que está a fazer fintas. É como a cena do filme “Fúria de Viver” em que dois jovens conduzem, em despique, os carros para um precipício. O primeiro que sair do veículo é considerado medricas. Se ambos resistirem, acabam a corrida no fundo da ravina. É um jogo trágico, porque reproduz o velho equilíbrio dos poderes nacionais que levou o continente à ruína. A União Europeia nasceu para acabar com esse jogo de corridas mortais.