O empresário russo Alexandre Lebedev acaba de comprar, pelo preço simbólico de uma libra, o prestigiado The Independent, um diário britânico de centro-esquerda de qualidade, mas coberto de dívidas. É o terceiro título da imprensa europeia adquirido por milionários russos em menos de dois anos. No ano passado, Lebedev já tinha deitado a mão ao diário londrino popular Evening Standard enquanto em França o France-Soir passava para as mãos de outro oligarca: Serguei Pugatchev. Pugatchev pôs o seu filho Alexandre à testa do diário francês, Lebedev o seu filho Evgueni à testa do Evening Standard, na Grã-Bretanha. A política comercial dos dois jornais permite pensar que não se trata de facto de uma questão de dinheiro mas antes de um brinquedo para meninos de boas famílias. O France-Soir passou a custar 50 cêntimos em Março e o Evening Standard passou a ser gratuito, em Outubro passado.

Agentes de influência do Kremlin

Por que motivo terão estes empresários russos, que fizeram fortuna na banca e na indústria, começado a comprar jornais europeus em decadência e até, como no caso do France-Soir, um jornal moribundo, ainda que noutros tempos tenha sido um título de prestígio? Esta pergunta continua a suscitar muitas conjecturas. Nas nossas sociedades racionais, preferimos respostas racionais. Por conseguinte, iremos imputar a estas pessoas o papel de agentes de influência do Kremlin. Há elementos que contribuem para sustentar esta tese: Pugatchev pai gosta de se apresentar como amigo de Vladimir Putin. Por seu turno, Alexandre Lebedev cometeu o terrível pecado de juventude de ter pertencido ao KGB, organismo do qual Putin também foi membro. Mas será que comprar um jornal é verdadeiramente uma forma de exercer influência, numa sociedade aberta, na qual a palavra escrita está moribunda? É caso para duvidar.

"A finalidade não é falar da Rússia", jurava o jovem Alexandre Pugatchev, que se naturalizou francês para poder fazer o negócio, citado aqui pelo le Nouvel Observateur no momento em que anunciava o relançamento do France-Soir. O Evening Standard, por seu lado, faz pouca cobertura internacional. "Não tenho nenhuma razão para pensar que, no caso do The Independent, Alexandre Lebedev irá mudar a cobertura da Rússia. Mesmo que seja claro que a Rússia está ávida de tudo o que lhe permita melhorar a sua imagem no estrangeiro", sublinha o professor George Brock, chefe do departamento de jornalismo da City University of London. É verdade que, desde há alguns anos, Moscovo tem vindo a fazer um grande esforço de comunicação para o exterior. A agência [noticiosa] oficial Ria Novosti chegou mesmo a lançar, em 2005, um canal de informação em contínuo, Russia Today, que emite em Inglês, Árabe e Espanhol informações bastante lisonjeadoras para as autoridades russas.

Jornais como títulos nobiliárquicos

Na Rússia, onde os oligarcas se bateram durante muito tempo pelos media, a começar pelo audiovisual, antes de serem afastados no início dos anos 2000 por Putin, eleito Presidente e decidido a mandar a sério, os analistas têm dúvidas de que a compra destes jornais tenha um pano de fundo político. Tal como as personagens de Balzac que imitavam a aristocracia, os oligarcas teriam em vista o seu bilhete de entrada para a alta sociedade, obviamente ocidental, a única que interessa. "É a sua campanha de comunicação pessoal para se introduzirem nas elites. Colocam os filhos na direcção destes jornais como forma de passarem a pertencer à nobreza. Estes deixam de ser russos e passam a ser europeus", salienta o analista Stanislav Belkovski, que em tempos esteve nas boas graças do Kremlin e que, em 2003, escreveu um relatório que causou algum alarido sobre "Os oligarcas e o Estado". A prova: prepararam os filhos para os cargos que viriam a assumir, tendo-os enviado desde muito novos para colégios e universidades dos antigos impérios francês e britânico.

No caso da compra do The Independent por Lebedev, George Brock coloca a seguinte hipótese: "Talvez se trate de uma questão de prestígio. Ser dono de um jornal dá direito a convites para todo o tipo de festas!" Os filhos destes oligarcas passaram a fazer parte dos people. O jovem Lebedev, frequentemente qualificado como um play-boy, apresentou-se na companhia da Spice Girl Gery Halliwell, antes de passar a andar com a actriz Joely Richardson (Nip Tuck), filha da actriz de teatro Vanessa Redgrave, que pertence a uma dinastia de gente ligada ao teatro.

Os oligarcas são decerto o fenómeno mais marcante das transformações da sociedade russa durante a era de Ieltsin (1991-1999): a redistribuição das imensas riquezas colectivas da economia soviética em benefício de uma meia dúzia de happy few. Um determinado número destes novos homens de negócios não sobreviveu à crise financeira de 1998; um número reduzido, demasiado ávido de poder, foi obrigado a exilar-se e pelo menos um, o proprietário do petroleiro Iukos, Mikhail Khodorkovski, acabou na prisão. Os restantes contentam-se com os lugares políticos que sobraram.

Dois banqueiros em busca de um império

No meio desta constelação, Serguei Pugatchev e Alexandre Lebedev parecem estar nos antípodas. Desconhecido antes de 2002, o banqueiro Pugatchev, que é originário de São Petersburgo, tal como Putin e Medvedev, passa por ser um oligarca piedoso. Com 47 anos, o homem que estendeu o seu império a quase todos os sectores, entre os quais a construção naval, cultivou durante muito tempo as suas parecenças com o czar Alexandre III – uma comprida barba ortodoxa e a cabeça calva. Foi ele quem apresentou a Putin aquele que se tornou no seu director espiritual, o monge Tikhon. E Putin tê-lo-ia aconselhado a adquirir os estaleiros navais de Severnaia Verf. Sendo religioso mas não um santo, terá "um passado criminoso", garante a jornalista Iulia Latinina, que trabalha para vários media, referindo uma condenação nos anos 1980.

Banqueiro e industrial (designadamente na aviação), Alexandre Lebedev é, por seu lado, um homem de ar moderno, ligado a Mikhail Gorbatchov, que fez cair a União Soviética. Financiou a instituição do Prémio Nobel da Paz que tem o nome da falecida mulher deste, Raissa, e acaba de criar com ele um partido de oposição moderado. Proprietário do Novaïa Gazeta, o jornal de Anna Politkovskaia, a corajosa repórter assassinada, chegou mesmo a oferecer uma recompensa em troca de informações que pudessem conduzir ao assassino da jornalista. Seria abusivo, porém, opor o mau oligarca, que não fala à imprensa – Alexandre Pugatchev também se recusou a responder às questões do Libération – e não perde uma ocasião para processar os media por difamação, ao bom oligarca, modelo da evolução de agente KGB para liberal convicto, apreciado pelos jornalistas estrangeiros por ser uma pessoa acessível.

"Todos os oligarcas fizeram fortuna à conta do dinheiro do Estado e da corrupção dos funcionários", recorda Belkovski."Lebedev limita-se a ser mais simpático e bem-educado." Quanto a Pugatchev, pouco estimado pelos seus pares, talvez não seja tão próximo do Kremlin com apregoa, assinala Iulia Latinina. Então e esses jornais? Meios para regressar à corte? A menos que se trate de meios para branquear capitais ou entrar para as fileiras dos que conseguem os melhores contratos… Ou, porque não, para fazer favores às elites dos países de acolhimento? Num momento em que o tom do France-Soir parece já estar mais à direita, decerto estaremos longe de ter esgotado todas as possibilidades.