Um dos centros mais decisivos para os desafios energéticos do futuro é a terceira central nuclear de Olkiluoto, de 3 mil milhões de euros, a primeira construída no continente desde o terrível acidente de Chernobil, em Abril de 1986. Para a empresa francesa Areva, líder mundial em energia nuclear civil, não se trata apenas de um grande projecto, mas do símbolo de uma nova aurora. Dotada de um reactor EPR [European Pressurised Reactor] – “de terceira geração” –, a instalação finlandesa pretende servir de cartão de visita a exibir pelo “lobby” do átomo, que está a viver um ressurgimento em estado de graça, tão enérgico como inesperado.

No entanto, nada corre bem no gigantesco estaleiro! Os atrasos multiplicam-se, ao ponto de a activação, inicialmente prevista para 2009, ter sido protelada para 2011. Segundo as mais recentes notícias, estará mais para 2013. O pior é que foram denunciados inúmeros defeitos por ONG internacionais, a começar pelo Greenpeace, que fez de Olkiluoto o seu principal cavalo de batalha contra os perigos insensatos que o ressurgimento da energia nuclear fará correr à humanidade. Desde o início dos trabalhos, há quatro anos, o Greenpeace recenseou mais de mil “incidentes” de construção ou brechas de segurança nos procedimentos do estaleiro. Litania que, contra todas as expectativas, não desanimou a população: mais de 55% continua favorável ao átomo. Um paradoxo, dado que, em 1986, os finlandeses foram dos primeiros europeus a encarar a possibilidade de ver passar por cima deles a nuvem radioactiva de Chernobil.

200 reactores em 20 anos

Em pânico com a morte anunciada dos hidrocarbonetos, apanhados pela crise climática e pelos compromissos em reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, os governos anunciam, uns após outros, a reactivação do segmento energético nuclear. Clinicamente liquidado depois de Chernobil, ressurge agora por toda a parte. Excepto em França, onde nunca desapareceu e sempre correu tudo bem. É ver: a Grã-Bretanha pretende pelo menos duas dúzias de novos reactores; a Alemanha, que tinha adoptado um plano de retirada definitiva da energia nuclear no momento decisivo da entrada no ano 2000, por impulso da equipa rosa-verde do chanceler Schröder, está a fazer marcha atrás e vai comprometer-se muito em breve “na retirada da retirada do nuclear”; a Suíça quer três reactores, além de que o Governo federal de Berna acaba de receber pedidos nesse sentido por parte das principais empresas da Confederação.

Mesmo em Itália, país profundamente nucléofobo, Silvio Berlusconi acaba de decidir uma mudança de orientação radical, com a ajuda de Paris, que fornecerá o seu "knowhow" atómico. E para não falar dos Estados Unidos, da Rússia, da Índia e da China… No total, entre as centrais em construção, com obra programada e em proposta, são mais de duzentos os reactores que podem brotar nas próximas duas décadas! Até a Ucrânia, orgulhosa pátria de Chernobil, lançou planos para 22 novas “fracções” (reactores).

Um balanço que causa arrepios

Desde que a redução imperativa de emissões de gases com efeito de estufa se impôs como uma evidência, a energia nuclear dispõe, primeira vez desde há muito, de uma vantagem no pugilato ideológico quanto ao seu futuro: não emite praticamente CO2. “A energia nuclear não contribui para reduzir as emissões de CO2", afirma Lauri Myllyvirta, um jovem que se tornou notado ao prender-se com cinco colegas do Greenpeace, durante cinco dias, no alto de uma grande grua vermelha no estaleiro de Olkiluoto. "Mas vejam-se, antes, a duração das instalações e a quantidade energética necessária para a sua laboração. Tenham-se em conta a catástrofe ecológica que representam as minas de urânio. Avaliem-se as centenas de milhares de quilómetros percorridos por veículos pesados, para fazer circular as barras de combustível nuclear do seu lugar de fabrico até às centrais, e das centrais até aos centros de reprocessamento. E depois, destes até aos locais de armazenamento temporário dos resíduos. Acrescentem-se aos comboios de camiões as escoltas de veículos militares ou de polícia, porque não se transporta urânio como se fosse carvão…"

Petteri Tiippana, vice-director da Stuk, a autoridade finlandesa em matéria de vigilância da energia nuclear, elabora um balanço arrepiante. “O problema da Areva, que é afinal o dos finlandeses, é que a competência se perdeu completamente pelo caminho, desde a construção da última central nuclear na Europa, há mais de vinte anos. Para além disso, o EPR é um reactor de tipo novo: equivale a dizer que a Finlândia ofereceu o seu território para servir de campo de ensaio. Fico com a sensação de que a Areva vai aprendendo o seu trabalho à medida que o realiza. Foram demasiado optimistas, fizeram promessas que não podiam cumprir, têm andado demasiado depressa, porque queriam produzir um modelo planetário de encher o olho.”

Nuclear, uma fonte que compromete durante longos anos...

A duração do OL-3 será de sessenta anos, segundo previsões da TVO, a companhia de electricidade finlandesa, proprietária de Olkiluoto e que encomendou o EPR. Se o reactor começar a trabalhar em 2013, será desligado por volta de 2073. Salvo improváveis milagres, Lauri Myllyvirta e Petteri Tiippana, bem como o autor destas linhas, terão morrido há muito, quando ocorrer a desmontagem definitiva da instalação, prevista para 2120. De todas as fontes de energia existentes, a energia nuclear é a única que compromete por tanto tempo o destino de gerações ainda não nascidas, porque continua a não existir solução para o armazenamento definitivo dos resíduos gerados.

Este artigo foi retirado do livro L’après pétrole a commencé [O pós-petróleo começou], de Serge Enderlin.