Em Setembro de 1994, Wolfgang Schäuble, então líder da bancada dos deputados do CDU-CSU no Bundestag, lançava, em conjunto com o seu colega Karl Lamers, a ideia provocadora de “núcleo europeu” (Kerneuropa).

O coração económico e estratégico do continente – Alemanha, França e Benelux – deveria dotar-se de uma moeda própria, para impedir que a iniciativa comunitária caminhasse para “uma formação fraca, limitada a alguns aspectos económicos e composta de diversos subgrupos”. Dezasseis anos depois, a profecia de Wolfgang Schäuble tornou-se realidade. Não no aspecto positivo – “o núcleo europeu” –, mas no sentido mais negativo. A União Europeia dos Vinte e Sete, 16 dos quais associados na Eurolândia, é uma criação elefantina e frágil, inexistente na cena mundial e tão fragmentada que mina as próprias bases do euro.

Ontem, Wolfgang Schäuble, que entretanto passou a ministro das Finanças, recordou que o seu Governo pode recusar o crédito à Grécia, fazendo-se eco das recentes advertências da chanceler Angela Merkel – “é necessário encarar, como medida extrema, a possibilidade de excluir da união monetária europeia um país enfraquecido” – e o sentimento cada vez mais generalizado da opinião pública alemã.

O marco alemão, símbolo de riqueza

Já na altura do lançamento da moeda única, pelo menos dois em cada três alemães declaravam preferir o velho marco ao euro. Esse cepticismo nunca foi assimilado. A quase falência grega desperta, pois, fobias profundas, acentuadas pela recessão, no topo das quais a de ter de pagar pelos outros. Os alemães não querem tornar-se o multibanco da Europa, a que os países em dificuldades podem ir buscar dinheiro, se necessitarem. Hoje os gregos, amanhã talvez os portugueses, os espanhóis, nós [os italianos]. Em suma, os famosos "PIGS", os "beduínos", os "mandriões do Clube Med" contra os quais a ortodoxia alemã e neerlandesa se insurgia já nos anos 80.

Quando Mitterrand avisou Kohl de que o preço do Sim francês e europeu para a “Grande Alemanha” era o fim do marco e do Bundesbank, transformados em moeda e Banco Central europeus, o argumento europeísta desarmou os numerosos cépticos. As elites da nova República de Berlim queriam demonstrar que o objectivo da unidade alemã era uma Alemanha europeia e não uma Europa alemã, mas sempre pensando que o euro devia comportar-se como o marco e o BCE como o Bundesbank. Daí o aparente rigor dos "critérios" de Maastricht e a escolha de Frankfurt para sede do BCE.

Necessidades geopolíticas e económicas alargaram posteriormente a Zona Euro muito para além dos limites desejáveis traçados em 1994 por Wolfgang Schäuble e Karl Lamers, sem que a difusão da moeda fosse acompanhada dos necessários sinais de reforço da unidade política europeia.

A crise grega confirma que, na Europa, cada um só pensa por si. Uma evidência, dado que os responsáveis políticos respondem perante o seu eleitorado e não perante uma inexistente força política europeia. Como pode surpreender que, na cacofonia europeia, os mercados considerem como certo o desmoronamento de Atenas?

Nas declarações de Schäuble ou de Angela Merkel pretende-se ver sobretudo a necessidade de acalmar os receios dos alemães, com vista às eleições na Renânia do Norte-Vestefália [o mais populoso e influente Estado federado da Alemanha], a 9 de Maio. Uma interpretação redutora, que não tem em conta a questão de fundo: a Alemanha está farta de fazer sacrifícios em nome de parceiros europeus que não são fiáveis.

Assim, enquanto o primeiro-ministro grego, Georges Papandreu, evoca, na ilha de Kastellorizo, "uma nova Odisseia para o helenismo", a tentação do núcleo europeu volta à superfície em Berlim e com ela a de uma moeda para a área de influência económica alemã. Já não apenas com a França e Benelux, mas também a Áustria e alguns Estados centro-europeus ou bálticos. Mais ninguém. Não sabemos se tal perspectiva é realista ou não, mas sabemos que iria custar a todos nós, europeus – com os italianos e os outros “PIGS” na frente, mas também aos alemães –, lágrimas e sangue.