O Reino Unido, o país do empreendedorismo liberal, onde se situa o principal centro financeiro da Europa, a City de Londres, e onde vive um número recorde de pessoas verdadeiramente ricas, está numa situação desesperada. Segundo alguns, é o grande doente da Europa: com um défice de 180 mil milhões de libras esterlinas, Londres não tem interesse em fazer ondas acerca da desordem grega. O Estado não está bem e o cidadão comum não está melhor. O endividamento das famílias do Reino Unido é duas vezes superior ao registado em França.

Diversas associações têm denunciado o aumento das agressões à facada, do fenómeno da embriaguez até à perda de consciência entre as mulheres e uma tal insegurança nas escolas que levou mesmo à instalação de detectores de metais à entrada. Os estudos sociológicos incluem agora uma nova categoria de classificação social: os NEET (Not in Education, Employment or Training – nem estudantes, nem empregados, nem em formação), uma categoria que está longe de declinar.

Estará o Reino Unido realmente a viver uma situação de "recessão social"? O muito sério semanário The Economist investigou recentemente o fenómeno e demonstrou, com o apoio de números e gráficos, que a criminalidade está em baixa, tal como o número de mães adolescentes (apesar de ser o mais elevado da Europa). O consumo de álcool e de droga também diminuiu, ainda que marginalmente. Pelo seu lado, a opinião pública tem uma imagem muito negativa do país. Em 1997, quando da chegada ao poder do Partido Trabalhista, 40% dos britânicos consideravam que era cada vez menos agradável viver no seu país; com Gordon Brown como primeiro-ministro e mesmo antes da crise, essa percentagem subiu para 73%!

Um futuro de suor e lágrimas

No ano passado, a popularidade de Brown caiu ao ponto de se ter tornado claro que, se não conseguissem vencer as eleições agora, os conservadores nunca mais as ganhariam. Mas o líder destes últimos, David Cameron, estendeu uma armadilha a si próprio com a sua broken society [sociedade dividida – ou arruinada]. Se o diagnóstico que ele faz da sociedade estiver certo, coloca-se a questão de saber quais os meios propostos para curar um povo inteiro dessa doença grave e, ainda por cima, em tempos de crise. Hoje, com um défice recorde, só se pode prometer suor e lágrimas. Não há outra opção que não seja fazer cortes no orçamento (os partidos políticos ousam mais ou menos referir isso) e aumentar os impostos (coisa que tentam não mencionar).

No entanto, a campanha eleitoral fez uso de emoções bem diferentes. Para as decifrar, podemos começar por recordar a reacção histórica da maior parte dos britânicos à morte da princesa Diana, em 1997. Diana era a "rainha dos corações" mas era encarada com a maior das reservas pelo establishment político, que não via nela nem a classe nem a maturidade necessárias a uma futura rainha.

Os tablóides viram, então, com maus olhos a publicação do ensaio de Anthony O'Hear, professor de filosofia e presidente do Royal Institute of Philosophy, Faking It – The Sentimentalisation of Modern Society [Fingimento – A sentimentalização da sociedade moderna]. Segundo o autor, o luto universal revelava uma tendência, profunda e negativa, do país para um "gosto insaciável pelo sentimentalismo, que fecha os olhos perante a realidade, em todos os aspectos da nossa existência".

Britânicos obcecados com um governo eficaz

Que tem isto a ver com as eleições legislativas de hoje? Os debates televisivos em que participaram os principais candidatos ao cargo de primeiro-ministro introduziram um elemento novo: a reacção espontânea e a referência ao sentimento. Dantes, estes debates não existiam. Não se tratou apenas de imitar os modelos políticos estrangeiros mas de qualquer coisa mais importante, que diz respeito à própria natureza do sistema político.

Os britânicos estão obcecados com a constituição de um governo eficaz. Têm um medo bem real daquilo a que se chama um "hung parliament", literalmente um parlamento suspenso, e das coligações que possam vir a revelar-se necessárias. A tradição britânica estabelece que o governo seja directamente responsável perante os eleitores. Em caso de se formar uma coligação, não é o povo que confia o poder a um grupo político específico – são os partidos que se entendem entre si, nas costas dos eleitores, que ficam sem qualquer controlo, explica George Jones, antigo professor de política na London School of Economics.

O fim da política bipartidária

Há pouco tempo, assistiu-se a uma grande transformação do sistema, com a ascensão de um terceiro partido, o dos liberais democratas. Porquê esta mudança? Porque a maior parte dos britânicos viu pela primeira vez o líder desse partido, Nick Clegg, a usufruir de um tempo de antena mais alargado, num debate televisivo.

Outrora, no Reino Unido, considerava-se que o voto tinha um carácter de classe: as pessoas votavam consoante o seu partido. Quem era pobre votava nos trabalhistas e aqueles a quem nada faltava votavam nos conservadores. Hoje, essas considerações foram abandonadas, as pessoas baseiam-se numa classe média, são mais homogéneas, já não encaram os partidos segundo uma divisão de classes.

Sabe-se, à partida, que o sistema de escrutínio uninominal em uma só volta joga em desfavor dos liberais democratas. Clegg poderia colocar a questão da reforma do sistema como condição para a sua participação num governo de coligação. Os conservadores opor-se-ão. O Partido Trabalhista vai hesitar. Mas, seja como for, parecerá que a política bipartidária no Reino Unido chegou mesmo ao fim.