Os exemplos ainda são esparsos, para já. Mas parece que, pelo menos entre a comunidade marroquina – o maior grupo de imigrantes não europeus da União, contando cerca de 30.000 pessoas em Turim –, as pessoas estão a fazer as malas e a voltar para casa.

A crise económica faz-se sentir e é muito mais difícil encontrar trabalho. Acrescenta-se a isso uma nova legislação, que torna mais duro para os imigrantes renovar as autorizações de residência, e o reforço da xenófoba Liga do Norte, um aliado de peso da aliança governamental de centro-direita, depois de ter ganho em toda a linha as eleições regionais do mês passado.

A guerra das mesquitas

Abdelaziz Khunati, presidente marroquino de uma associação islâmica que tem luz verde para construir uma mesquita em Turim, desfia uma lista de cidades onde a Liga do Norte obstruiu projectos similares, por vezes com ameaças de soltar porcos nos locais de implantação, para os dessacralizar.

"A Liga começou por fazer campanha contra os italianos do Sul que imigraram para Turim há décadas; depois, passou para os estrangeiros em geral. Agora são os muçulmanos”, diz, no meio do grande edifício vazio, parte do qual já serviu de loja de roupa de chineses, onde toma agora forma a nova Mesquita da Misericórdia.

É apenas a segunda mesquita formalmente reconhecida em Itália, depois da de Roma, e é financiada pelo Governo marroquino. Para já, os muçulmanos de Itália praticam o culto em "centro culturais", por vezes em garagens ou caves.

"Defendemos uma sociedade aberta, integrada, multicultural, onde os direitos de todos sejam respeitados”, diz. Vai abrir um centro cultural islâmico ao lado da mesquita, para promover estudos, iniciativas sociais e o diálogo inter-religioso.

"A mesquita tem sido uma guerra de nervos”, diz Ilda Curti, vereadora para a Integração, no município dirigido por Sergio Chiamparino, o popular presidente de esquerda de Turim. E conta como a Liga do Norte tentou, sem sucesso, explorar as falhas legais para obstruir o projecto apoiado pelo município.

Turim, descrita pelas Nações Unidas como um modelo das melhores práticas em Itália, investiu na integração nas escolas e tem um programa que dá a jovens imigrantes a possibilidade de trabalharem como assistentes sociais voluntários, contornando assim as regras, para lhes garantir o visto de residência. Mas Ilda Curti diz que as dificuldades em obter a cidadania italiana estão a afastar os imigrantes jovens e talentosos que vieram através da escola, mas se deparam depois com barreiras intransponíveis. O "corporativismo medieval” de muitas associações profissionais impõe a cidadania como condição para a adesão.

Liga quer proibir subsídio de desemprego a não italianos

A vitória da Liga do Norte nas votações do mês passado – em que derrotou a direcção de centro-esquerda do Piemonte, região vizinha de Turim – não é um bom auspício para os imigrantes. A Liga pretende evitar o acesso de não-Italianos aos subsídios de desemprego, situação original do Piemonte, mesmo os que pagam impostos há vários anos.

Mohammad Muharba veio na primeira onda de imigrantes, em 1989, quando a Itália oferecia empregos e vistos de residência. Muharba tem agora uma padaria popular, especializada em pastelaria árabe e italiana, perto de Porta Palazzo, o maior mercado ao ar livre da Europa, onde muitas bancas de fruta e vegetais são geridas por marroquinos.

Pessoas que conhece há anos estão a voltar para casa, impossibilitadas de renovar os seus vistos de residência. "Correm connosco, se não tivermos emprego. Isto é desumano”, declara. "Com a Liga, vai ser ainda pior." Os filhos, de 18 e 15 anos, têm cidadania italiana e são "mais italianos do que marroquinos. Mas, aqui, hão-de ser sempre vistos como imigrantes."