A aldeia é constituída por meia dúzia de casas pitorescamente espalhadas por colinas verdes. Pode-se passar a noite em quase todas, por poucos euros. Em qualquer uma se pode também pedir que nos ponham do outro lado da fronteira – em linha reta, são menos de dois quilómetros de Konispol até à Grécia.

É difícil chegar a Konispol. Os albaneses têm vindo a lutar para que a União Europeia os reconheça oficialmente como candidatos à adesão. Uma das condições é garantir a segurança das fronteiras, consideradas o calcanhar de Aquiles de todo o bloco, o que faz com que os postos militares e policiais de controlo comecem uma dezena de quilómetros antes de chegar à aldeia.

A polícia de Gjirokaster, a capital regional, já se deu conta de que os gregos não estão a ser tão rígidos na captura de imigrantes ilegais, nos últimos tempos. "Ultimamente, a pressão abrandou muito", comenta um polícia local, pedindo que o seu nome não seja divulgado. "Não percebo se é uma estratégia ou apenas relaxamento geral. Mas desde as eleições [de maio]... parecem ter deixado por completo de proteger a fronteira."

Negociatas locais

As perspetivas de negociações para uma integração plena da Albânia na União Europeia são hoje o principal tópico político das conversas. Em novembro, Bruxelas irá dizer se o país está em condições de obter o estatuto oficial de candidato.

"As nossas possibilidades são reduzidas", diz Gjergj Erebara, repórter do jornal Shqip, de cenho carregado. "O Partido Democrata Albanês transformou a União numa lebre artificial a perseguir, mas sem termos possibilidade de a apanhar, porque isso significaria que a corrupção teria de acabar, tal como muitas negociatas. Em novembro, não vai mudar nada."

Edi Rama, líder do Partido Socialista da Albânia (o principal partido da oposição) e antigo presidente da Câmara de Tirana, põe o partido governamental de rastos: "Toda a UE tem visto como o primeiro-ministro Sali Berisha tem manipulado umas eleições atrás das outras; primeiro, as legislativas, depois as autárquicas", diz. Os socialistas sempre se queixaram de ter havido manipulações por parte do partido de Berisha, com vista à sua derrota nas eleições parlamentares de 2009. Boicotaram o parlamento durante meses; quando os partidos da oposição promoveram uma grande manifestação contra o Governo, em janeiro de 2011, as forças de segurança dispararam sobre a multidão, matando três pessoas e ferindo mortalmente um quarto manifestante.

"Até hoje ninguém respondeu por isso. Como pode um país onde se passam coisas destas pensar em aderir à UE?", pergunta Rama. Erebara admite que Berisha é um político muito sagaz. "E é excelente a desviar a atenção pública dos verdadeiros problemas" – como por ocasião do desfile do “orgulho gay”.

Entusiastas até certo ponto

Marku Edi tem quase 60 anos. Tem um chapéu de pala, dos que os cavalheiros da sua idade gostam de usar, e segura um cartaz que diz: "Tira a mão de cima!". É uma das várias dezenas de pessoas a manifestar-se contra o desfile do “orgulho gay”, em frente do edifício do parlamento, em Tirana.

"Sabe, gostava muito de ver a Albânia aderir à União Europeia", afirma. "A UE vai ajudar-nos a construir estradas, vai-nos apoiar financeiramente e os nossos jovens vão poder estudar no estrangeiro – tenho duas filhas a estudar. Mas se o preço é a aceitação de degenerados, então temos de pensar um pouco melhor no assunto."

As minorias sexuais já tinham provocado grande celeuma na Albânia, em 2009. Naquela época, Berisha antecipou-se não apenas ao seu próprio eleitorado, mas à maioria dos países da UE, quando, em vez de reagir contra os primeiros sinais de raiva em relação às eleições, anunciou o seu apoio à legalização dos casamentos homossexuais.

A opinião pública albanesa ficou escandalizada, mas Berisha é dirigente de um partido conservador que simpatiza com organizações muçulmanas, pelo que ninguém se lhe opôs. No início deste ano, quando a associação Pink Embassy anunciou estar a planear a primeira manifestação do “orgulho gay” em Tirana, todos ficaram na expectativa do que o primeiro-ministro iria dizer.

"Todos os jornalistas, como de costume, começaram à procura de quem fosse contra", recorda Erebara. "E encontraram – o vice-ministro da Defesa. Ele afirma que todos os homossexuais devem levar um pontapé no rabo." Os EUA e a UE responderam, lembrando aos albaneses que têm de respeitar os direitos dos homossexuais. E o debate centrou-se na homossexualidade, em vez de na adesão à UE. "Será que não temos problemas realmente mais graves?", pergunta, retoricamente. E começa a listá-los: "O desemprego está acima dos 15%, e os jovens formados não têm outra perspetiva senão partir para Itália."

No final, a Pink Embassy, temendo pela segurança dos participantes, decidiu adiar a manifestação.

Na verdade, o entusiasmo albanês pela UE não tem comparação. Na Turquia, o apoio público à adesão à UE esforça-se para passar além de 50%. O apoio caiu acentuadamente na Sérvia, que comprou o seu estatuto de candidato com a entrega dos suspeitos de crimes de guerra – Milosevic, Karadzic, Mladic – ao Tribunal de Haia. Até a Croácia, que se prepara para ser o próximo membro da UE, é muito mais eurocético do que a Albânia.

"O apoio à adesão à UE tem-se mantido nos 97-98% há anos", aponta Erebara. "Nenhum país na história da União teve alguma vez tais resultados. Aqui, ao contrário da Turquia, por exemplo, até mesmo os muçulmanos casmurros são euro-entusiastas."

Mas o que fazer com esse entusiasmo, se a Albânia não está a avançar nas negociações? "Estão a contar com a possibilidade de aderir à UE por crédito", comenta um diplomata da UE. "Entraram para a NATO, apesar de não cumprirem os requisitos. A Aliança reconheceu que a posição estratégica da Albânia era suficientemente importante para fechar os olhos. Mas não me parece que, desta vez, tenham sorte. A Albânia está muito afastada dos padrões da União, e a Europa – depois da crise na Grécia – baseia-se cada vez mais em princípios. A UE vai certamente facilitar algumas coisas – por exemplo, a Albânia já tem vistos para viajar pelo espaço Schengen e um acordo comercial muito favorável. Mas até o Governo começar realmente a mudar o país, não vai haver negociações."

Adivinha quem vem jantar?

A vida em Konispol esmorece depois das oito da noite. Os candidatos à emigração vão mesmo mais cedo para a cama, porque a maioria levanta-se às quatro da manhã, come o pequeno-almoço padrão local – de ovos cozidos, um tomate e um pão com compota –, bebe café e arranca, de modo a chegar a Igumenitsa ao fim da tarde.

Quem não consegue dormir vai sentar-se no café central. Izeti Guri, de 17 anos, que atravessa a fronteira todos os dias para pintar barcos num porto grego próximo, conta-me em inglês tudo o que sabe sobre os seus compatriotas ali sentados.

"Este homem tem um irmão na Grécia e juntos gerem um negócio de limpeza de escritórios" – apontando para um homem de meia-idade, com um bigode. “Aquele tem uma namorada grega e gaba-se de ir casar com ela e assim obter um passaporte da UE." O homem, Jovan, diz que a atitude dos gregos em relação aos albaneses mudou de desprezo para respeito, com o avanço da crise: "Ainda há um ano, os pais da minha noiva consideravam um problema ela ter um namorado da Albânia. Recusavam-se a conhecer-me", recorda. "E agora? Convidam-me para jantar e perguntam se há alguma coisa em que me possam ajudar." "A que se deve a mudança?" "Perceberam que não podem viver sem a nossa mão de obra."

"Só nós podemos salvar a Grécia, agora", diz alguém muito a sério, e os outros concordam. "Está a ver? O futuro de toda a UE está nas nossas mãos. Mas vocês, seus safados, recusam-se a deixar-nos entrar", diz o jovem Izeti, rindo.

Este artigo foi escrito no âmbito do projecto "*****Next in Line*****", cofinanciado pela União Europeia.