Numa altura em que as autoridades norte-americanas fazem soar o alarme em relação ao que consideram ser uma ameaça renovada do grupo militante xiita Hezbollah, milhares dos seus membros e simpatizantes operam com poucas restrições na Europa, angariando fundos que são canalizados para a sede do grupo, no Líbano. Washington e Jerusalém insistem em que o Hezbollah é uma organização terrorista apoiada pelo Irão e que tem as mãos sujas de sangue. E que está a trabalhar de perto com Teerão no treino, armamento e financiamento da letal repressão militar síria à revolta naquele país. No entanto, a União Europeia continua a tratá-lo como um movimento político e social.

Com Israel a alimentar os receios de um ataque preventivo sobre instalações nucleares do Irão, os analistas de segurança advertem que o Irão e o Hezbollah responderão com ataques aos seus alvos no estrangeiro. Autoridades israelitas e norte-americanas atribuíram ao Hezbollah e ao Irão o atentado [de um bombista-suicida] ao autocarro búlgaro, que no mês passado matou seis pessoas, incluindo cinco turistas israelitas, considerando-o parte de uma ofensiva clandestina que tem envolvido intervenções em diversos lugares, incluindo Tailândia, Índia e Chipre. Defensores do Hezbollah referem que não foram produzidas provas concretas que liguem a organização ao ataque.

Perfil discreto

Apesar de se supor que esteja a operar em todo o continente, o grupo terá a Alemanha como centro de atividade, com 950 membros e simpatizantes no ano passado, contra os 900 em 2010, referem os serviços secretos alemães no seu relatório anual sobre ameaças. O Hezbollah tem-se mantido discreto na Europa, desde os ataques de 11 de setembro de 2001. Recolhe pacatamente dinheiro que envia para atividades humanitárias no Líbano, como a construção de escolas e clínicas, e, segundo os serviços secretos ocidentais, vai preparando ataques terroristas. Os serviços de segurança europeus mantêm-se atentos aos apoiantes políticos do grupo, mas são considerados ineficazes quando se trata de detetar células “adormecidas”, que são as que representam maior perigo. "Eles têm, na Europa, agentes reais, treinados, que não são utilizados há muito tempo. Mas se quiserem torná-los ativos, podem", considera Alexander Ritzmann, conselheiro político da Fundação Europeia para a Democracia, de Bruxelas, que tem prestado testemunho perante o Congresso dos EUA sobre o Hezbollah.

"A haver provas tangíveis do envolvimento do Hezbollah em atos de terrorismo, a UE deve pensar em pôr a organização sob vigilância", defende Erato Kozakou-Marcoullis, ministro dos Negócios Estrangeiros de Chipre, país que assume neste momento a presidência rotativa da União Europeia.

A grande variedade de pontos de vista reflete os muitos papéis que o Hezbollah tem representado desde que surgiu no Líbano, após a invasão israelita de 1982. A ala militante do Hezbollah foi responsável por uma série de raptos e sofisticados atentados no país e foi acusada de atentados à bomba no estrangeiro. Mas o grupo também proporciona serviços sociais que o dilacerado Governo libanês seria incapaz de fornecer, transformando-se assim numa força política com dois ministros e uma dúzia de lugares no Parlamento.

O secretário-geral do grupo, Hassan Nasrallah, afirmou que uma lista negra europeia iria "destruir o Hezbollah. As fontes dos nossos financiamentos secariam e as fontes de apoio material e político moral secariam".

Agentes adormecidos

A Europa tem sido muito mais tolerante com grupos militantes islâmicos do que os Estados Unidos. Antes dos ataques do 11 de setembro, a Al Qaida tinha um Gabinete de Imprensa em Londres. Grande parte do planeamento e organização dos ataques ocorreu em Hamburgo, na Alemanha, onde vivia o líder da conspiração, Mohamed Atta. As autoridades norte-americanas há anos que se queixam em privado da relutância da Alemanha em reprimir as empresas que contornam as sanções contra o Irão. A pressão parece ter dado resultados, tendo a Alemanha concordado, no ano passado, em incluir o banco de comércio iraniano-europeu [o Eihbank, fundado em 1971], com sede em Hamburgo, numa lista negra da União Europeia.

No entanto, enquanto os governos norte-americano e israelita encaram o Irão e o Hezbollah como desenvolvendo a sua capacidade, há muito dormente, para o terrorismo internacional, os europeus diferenciam claramente uma rede terrorista internacional como a Al Qaida daquilo que é visto como um conflito que coloca frente a frente Israel e os Estados Unidos, por um lado, e o Irão, Síria e Hezbollah, por outro.

Alguns analistas referem que grupos xiitas como o Hezbollah representam um risco menor do que organizações militantes sunitas como a Al Qaida. "O maior perigo de militantes islamitas vem dos salafistas; não dos xiitas, mas dos sunitas", considera Berndt Georg Thamm, especialista em terrorismo, em Berlim, referindo-se à linha dura do Islão sunita. A diferença de visões dos dois lados do Atlântico é tão grande que as autoridades norte-americanas parecem mais preocupadas com a ameaça que o Hezbollah representa para a Europa do que os próprios europeus.

Acordo tácito

Os Países Baixos declararam o Hezbollah uma organização terrorista em 2004, argumentando que não faz distinção entre as alas política e terrorista do grupo. A Grã-Bretanha faz a distinção entre ambas, perseguindo apenas a ala militante. "Os britânicos encaram isso como uma ferramenta: se mudarem, tiramo-los da lista", diz Ritzmann. "Os franceses não consideram inteligente colocá-los na lista de terroristas, porque são intervenientes políticos de peso." Thamm considera que "não há nenhuma intervenção unificada do Hezbollah. E isso não vai mudar no futuro próximo". Os céticos na Europa dizem que, como o Hezbollah se tornou mais político, o grupo afastou-se do seu passado terrorista, se é que não o abandonou totalmente, e que Israel está a alimentar receios com o fim de justificar um ataque contra as instalações nucleares iranianas.

Alguns especialistas dizem que os serviços da segurança do continente se mostram renitentes a pôr o grupo na lista negra porque parecem reconhecer uma distensão tácita, em que o Hezbollah não faz ataques e os responsáveis ​europeus pela aplicação da lei não interferem com o seu trabalho organizativo e de angariação de fundos. "Teme-se atrair a ira do Hezbollah e eventualmente convidar a intervenções do grupo nos seus próprios países", considera Bruce Hoffman, especialista em terrorismo e professor de Estudos de Segurança em Georgetown. “Para quê levantar a pedra e [arriscar-se a] ver o que está por baixo?"