André Glucksmann, a UE não perdeu o seu encanto. Ninguém se propõe voluntariamente deixar a Zona Euro.

Sócrates disse que ninguém faz asneira por vontade. Interpreto isso desta forma: os disparates acontecem quando a vontade enfraquece. Não me parece que procurar soluções e caminhos na atual crise financeira seja uma tarefa sobre-humana. Aliás, os dirigentes da UE vão-nos encontrando

aqui e ali.

E vão encontrando o seu caminho de uma cimeira de Bruxelas até à seguinte e a intervalos cada vez mais curtos. Mas as soluções que se esperavam não surgem.

O que falta é uma perspetiva global. O porquê da União Europeia, a sua razão de ser, perdeu-se. Haverá sempre maneiras de melhorar as instituições da UE e de as adequar às necessidades da situação. Podemos contar com a capacidade dos políticos e advogados para fazerem isso. O desafio surge a um nível diferente e é claramente uma questão de sobrevivência: se as antigas nações da Europa não se unirem e apresentarem uma frente unificada, perecerão.

Mas os dirigentes europeus não reconheceram isso?

Se o fizeram, porque agem com tão pouca unidade? A questão do tamanho tornou-se uma necessidade absoluta, na globalização. Angela Merkel sente indubitavelmente que o destino da Alemanha também vai ser decidido na envolvente europeia. Foi por isso que, depois de alguma hesitação, optou pela solidariedade, embora com moderação. No entanto, está igualmente a permitir que Alemanha, França, Itália e Espanha sejam divididas pela crise. Se os nossos países forem divididos por pressão das forças de mercado, perecerão, individualmente e em conjunto.

Quer dizer que a ideia de um destino comunitário europeu ainda não ganhou realmente força?

Na prática, não. A globalização acarreta um caos global e já não existe uma força policial global – papel que os Estados Unidos desempenharam durante muito tempo. Os intervenientes podem não querer guerras, mas não têm grande opinião uns dos outros. Cada um faz o seu jogo individual. Nesta confusão anárquica, a Europa tem de afirmar-se e enfrentar as ameaças na ofensiva. A Rússia de Putin, que quer reconquistar parte do território que perdeu, é uma ameaça. A China, um Estado esclavagista burocrático, é uma ameaça. O islamismo militante é uma ameaça. A Europa tem de aprender a pensar de novo em termos de hostilidade. (O filósofo alemão) Jürgen Habermas, por exemplo, não percebe isto, quando diz que o cosmopolitismo bem-intencionado pode unir todos numa cidadania global.

Para muitas áreas do mundo, a Europa é um farol de liberdade e de direitos humanos.

Mas os ideais e os valores não se combinam para criar perspetivas. As nações europeias podem seguramente gozar de um atraente pluralismo de valores, mas não basta apresentá-los como se fossem parte de um catálogo. Em vez disso, é importante enfrentar juntos os desafios. A Europa arrasta-se num estado persistente de hesitação, o que pode por vezes transformar-se em hipocrisia. Há duas maneiras de evitar desafios: uma é desviar o olhar e fingir que não existem. A outra é o fatalismo, ou seja, encolher os ombros e fingir que, de qualquer maneira, não há nada que se possa fazer. O grande historiador universal Arnold J. Toynbee avaliou o desenvolvimento de culturas com base na sua capacidade de reagir adequadamente aos desafios. A Europa pretende encarar o seu destino? Não há razão para duvidar..

Será isso resultado de falta de liderança?

É mais do que isso. É também uma questão de debilidade dos intelectuais, indiferença da opinião pública e isolacionismo. Olhe para as eleições na Europa. Qual o papel da política externa e da posição da Europa no mundo? Há alguns anos, a UE atribuiu-se um alto representante para os Negócios Estrangeiros e a Segurança, Catherine Ashton, com um organismo separado, que emprega milhares de funcionários públicos. Onde anda ela, o que está a fazer e quem dá por ela? O século XXI vai ser um século de grandes continentes, que ou se vão dar bem uns com os outros ou não. Se a Europa não entrar nessa dimensão, vai recuar para o século XIX. Então, a nossa atividade política só se poderá basear em memórias distantes: Europa, o continente da angústia e da nostalgia.

Como pode o fluxo de energia intelectual ser revitalizado? Pensadores alemães e franceses andaram muito tempo num estado de fascínio mútuo, que durou praticamente desde a Revolução Francesa até ao movimento estudantil de 1968.

Era uma curiosidade resultante da rivalidade e da competição. Observámo-nos atentamente uns aos outros e ficámos a conhecer-nos muito bem. A distância intelectual cresceu consideravelmente nas últimas décadas. Sempre houve diferenças no modo de pensar. Hegel descrevia a Paris do Iluminismo como um exemplo do "reino animal intelectual" da autoexpressão. Os franceses argumentaram e soltaram impropérios; gostavam de diferenças e de polémicas. Os seus debates eram um pouco aparentados com o jornalismo e o espetáculo, mas já não tanto com o rigor académico.

Os alemães trabalhavam grandes sistemas explicativos, buscando nos limites do conhecimento um substituto para a falta de unidade política e religiosa. Hoje, uma depressão intelectual abate-se sobre ambos os países. A intelectualidade como classe social deixou de existir em França, e falta coerência de ambos os lados (da fronteira franco-alemã). Perdeu-se no pós-modernismo..

Então aqueles que desejam furtar-se aos grandes desafios já não precisam de grandes conversas, é?

Pelo menos é isso que é postulado no que Lyotard encara como o fim dos sistemas e ideologias. Mas o pós-modernismo, supostamente não-ideológico, é em si uma ideologia. Vejo-o como a personificação do movimento dos indignados – indignação como protesto moral, que é um fim em si mesmo. A forma é o conteúdo. Isso lembra-me Oskar Matzerath de O tambor de lata de Günter Grass: eu vejo, eu toco tambor e o mundo intolerável desmorona-se.

Uma crença infantil?

A Europa ainda é um parque de diversões de ideias. Mas o pensamento está tão fragmentado, tão oprimido por escrúpulos, que escapa ao verdadeiro teste. Neste sentido, é uma imagem refletida no espelho da política.

Leia a primeira parte da entrevista******: "A Europa caracteriza-se pela noção de crise"