Peter tem cabelos loiros e compridos: o seu fato escuro é impecável. Bom pai de família, todas as manhãs leva a filha à escola, na sua mota. Depois, vai a assobiar para o trabalho, uma sociedade de trading financeiro no centro da cidade de Amesterdão…Um emprego stressante onde vê a crise passar de perto. “Quando leio que a Holanda é uma ilha de prosperidade, um país feliz com o desemprego mais baixo da Europa, isso faz-me sorrir”, diz ele. Por trás do postal ilustrado está a realidade: a crise financeira de finais de 2008 prolongou-se na crise da zona euro. O contribuinte holandês lamenta cada vez mais ter de meter a mão no bolso para salvar a Grécia ou a Espanha quando a crise tem efeitos tangíveis no seu quotidiano. “Em Amesterdão, não se veem pessoas a dormir na rua, como em Paris, mas isso não significa que não haja problemas”, garante Peter.

A desigualdade aumenta e a precarização espalha-se de maneira galopante no mercado de trabalho. Cerca de 370 mil trabalhadores em nove milhões de população ativa vivem abaixo do limite da pobreza. A tendência do Flexwerk, o trabalho precário, é denunciada pelos sindicatos que nada podem fazer. “Fala-se, fala-se mas a direção não quer saber e há muito que não vemos a cor a um contrato por tempo indeterminado”, lamenta Farid, 20 anos, funcionário da Albert Heijn. Nesta cadeia de supermercados, três quartos dos empregados têm menos de 23 anos. São pagos pela tabela do salário mínimo para jovens com contrato a tempo parcial e a prazo.

Nostálgico do florim

Os números são eloquentes: apenas duas mil pessoas assinaram um contrato de duração ilimitada em 2011, contra 83 mil no ano anterior… Enquanto os contratos a prazo se tornam a regra, as empresas com um único funcionário duplicaram, passando para 750 trabalhadores independentes em 2011, que não são protegidos por nenhum acordo coletivo. Tudo isto, sobre um fundo de austeridade, com uma perda de poder de compra estimada em 7% em 2012 e 2013. Por seu lado, os reformados, vão pagar os riscos que as caixas que gerem as suas poupanças assumiram nos mercados financeiros. Como uma parte foi engolida em 2008, vão ver baixar as suas reformas complementares.

Então, fora o Islão e os imigrantes. Estes assuntos, centrais durante as legislativas de 2006 e de 2010, deram lugar a uma campanha centrada na Europa, acusada de ter precipitado o fim do Estado Previdência. Neste país que votou maciçamente não no referendo de 2005 sobre o tratado constitucional europeu, há muito tempo que se mete travão a fundo à UE. Os democratas-cristãos e os liberais, no poder nos últimos dez anos, são contra a entrada da Turquia, contra a admissão da Roménia e da Bulgária no espaço Schengen mas, sobretudo, opõem-se à ajuda infinita aos países do Sul que gerem mal as suas finanças.

Milhares de milhões de euros devorados pelo fundo de emergência estão em debate, porque são acompanhados por cortes que se repercutem em todos os domínios: cultura, educação, saúde, reformas. “Os nossos velhos não vão pagar as fraudes dos gregos”, acena o populista de direita Geert Wilders, líder do PVV, a terceira força política do país.

Este nostálgico do florim, antiga moeda do país, preconiza uma saída pura e simples da UE – o que custaria a bagatela de €90 mil milhões à economia nacional, segundo as suas estimativas. Atiça, também, os temores em relação ao fluxo de trabalhadores polacos, desde que, em 2007, foi aberta a fronteira à Europa de Leste. “Há 200 mil tipos que vieram do Leste que metem as mãos a qualquer coisa, em todos os níveis, porque aceitam trabalhos mal pagos”, queixa-se Martijn, 39 anos, um contabilista que perdeu o emprego em fevereiro, por causa da recessão – e não dos polacos – mas, ainda assim, disposto a votar em Wilders.

Reconstruir a ponte

O populismo de esquerda também vai de vento em popa, com o Partido Socialista (SP), antigamente maoista, a subir nas sondagens desde maio, ao opor-se aos dictates de Bruxelas. “A regra europeia de 3% para o défice orçamental não pode impedir a Holanda de fazer derrapar as suas finanças como entender, relançando o crescimento com grandes obras públicas”, garante Emile Roemer, o candidato do SP…

Devemos concluir que existe uma profunda eurofobia num dos seis países fundadores da Europa do pós-guerra? A resposta precisa de ser esmiuçada. Para Adriaan Schout, responsável dos estudos europeus do instituto Clingendael, as discussões sobre a Europa são acesas mas continuam a ser “sãs e normais”. “Wilders permitiu que o debate ganhasse maturidade: apareceu com números e afirmações, o que deu oportunidade aos outros partidos para o contradizerem. É verdade que há problemas e que não queremos continuar a pagar as contas da Grécia. Mas nenhum partido quer pôr fim à integração europeia”, explica o investigador.

A prova? O partido Trabalhista (PVDA) de Diederik Samsom, europeísta, ultrapassa agora o SP nas sondagens e aproxima-se da formação liberal (VVD) do primeiro-ministro cessante Mark Rutte. A sua proposta? “Reconstruir a ponte” de uma sociedade igualitária, que os liberais viram destruir-se e ser arrastada pela crise. “Chega, já chega!”, diz por seu lado Mark Rutte, sobre a ajuda à Grécia, atraindo mais críticas do que apoios porque foi o seu Governo que aceitou todos os planos de resgate apresentados pela UE.

Facto invulgar: o patronato, maioritariamente liberal, fez um videoclipe para defender a Europa, participando assim na campanha. Num vídeo que desde o início de setembro está a passar nos principais canais da televisão pública, a federação de empregadores e industriais holandeses (VNO-NCW) faz desfilar administradores de empresas, pequenas e grandes, que lembram o quanto a Holanda lucra com a UE. “Sem a Europa não haveria aeroporto de Schiphol ou porto de Roterdão”, afirma um deles. O mercado comum permite ganhar €180 mil milhões por ano, graças ao comércio externo e aos investimentos. No outro prato da balança está o compromisso máximo de 90 mil milhões para o fundo de emergência do Banco Central Europeu (BCE)…

O declínio do país

O problema, para alguns analistas, não é tanto o ambiente eurocético mas o próprio declínio do país. Um paradoxo, tendo em conta a inserção do reino na economia mundial. A maior parte dos partidos não tem nenhuma ambição em matéria de política externa, afirma igualmente o instituto Clingendael.

Também aí tudo gira em torno de questões de dinheiro: redução do orçamento da Defesa e da ajuda pública ao desenvolvimento, mas também das contribuições da Holanda para a UE. “O que queremos com a Grécia, o euro, a Sérvia?”, pergunta Pieter Feith, um veterano diplomata holandês, representante da UE no Kosovo. “Não podemos contar com uma política 100% coerente em Haia”, escreve o diário NRC Handelsblad. “Acontece os países mudarem, por vezes, de política, mas a nossa corre, a toda a velocidade, em todas as direções.” Afinal, o que queremos fazer com a Europa? É esta a questão central que se põe na Holanda.