Apenas 43% dos eleitores europeus se deram ao trabalho de ir votar, na semana passada, fazendo baixar os níveis de participação para, ainda menos, que os 45,5% registados em 2004. Mas, para José Manuel Durão Barroso, isto é razoável. “No conjunto, a vitória reverte inegavelmente para os partidos e os candidatos que apoiam o projecto europeu e desejam ver a União Europeia adoptar políticas de acordo com as suas preocupações quotidianas”, declarou, perante este espectáculo desolador.

Quando o presidente da Comissão Europeia qualifica a recusa da maioria dos cidadãos de ir às urnas como uma “vitória inegável”, devemos interrogar-nos sobre em que mundo político ele vive. Há, na verdade, razões de sobra para ver na atitude da população em relação às eleições europeias uma prova de insatisfação, frustração e falta de confiança. Uma sondagem alemã, que inquiriu cerca de 12.000 europeus, concluiu que 60% deles não contavam votar porque lhes “mentiam para terem o seu voto”. Cerca de metade das pessoas interrogadas declarou que o seu “voto não ia servir para melhorar nada”.

Como é seu hábito, a classe política europeia interpreta esta atitude fatalista como consequência de uma má compreensão por parte da população. “A abstenção dos eleitores não reflecte uma crítica em relação à União Europeia e ao seu processo político”, declara Herman Schmitt, do Centro de Investigação Social Europeia de Mannheim. Segundo ele, este desinteresse é, simplesmente, fruto de problemas de “apresentação” da própria Europa. Daí a Comissão Europeia ter procurado adular os jovens eleitores com anúncios simpáticos na MTV.

Graham Watson, do Grupo Parlamentar Liberal Europeu, não consegue perceber porque é tão elevada a taxa de abstenção. “Temos de estudar as razões pelas quais os eleitores não saem para ir votar”, declarou. Os principais políticos europeus estão de tal modo desfasados da realidade que, ao que parece, consideram os eleitores como uma espécie exótica e incompreensível, cujos hábitos e sensibilidades devem ser “estudados”.

Vários sinais indicam, no entanto, que o desinteresse da população é consequência de um projecto que afasta as tomadas de decisão políticas da vista dos cidadãos europeus. Uma das características do processo político europeu é que não sofre as pressões públicas nem sente o dever de justificação política a que estão sujeitos os parlamentos nacionais.

Bruno Waterfield, correspondente do Daily Telegraph em Bruxelas, considera que “surgiu uma forma especial de estatização no século XXI”, que permite “alargar as zonas de autoridade, ao mesmo tempo que se procede à restrição do seu acesso a um mundo fechado e privado de burocratas e diplomatas”. Concretamente, a maior parte da legislação da UE é redigida por centenas de grupos de trabalho secretos, criados pelo Conselho da União Europeia. Estas instituições desconhecidas do público contornam as formas habituais do dever de justificação democrática.

Esta institucionalização de tomadas de decisões em isolamento provoca inevitavelmente um decréscimo da capacidade dos políticos europeus motivarem e incentivarem os eleitores. A abstenção elevada não é um problema de apresentação, mas o resultado lógico de um sistema europeu feito de manobras políticas de bastidores. Assim, os dirigentes europeus surgem mais como burocratas do que como líderes políticos.

Quando tudo se desmorona, a União Europeia tenta assustar os eleitores, para os levar a votar. “Se os cidadãos não votam, correm o risco de ter mais partidos extremistas ou marginais”, avisava Hans-Gert Poettering, presidente do Parlamento. A principal mensagem dos líderes da União é, por conseguinte, que é necessário votar para manter os extremistas à distância, em vez de votar por razões positivas.

Esta cultura de política à porta fechada criou um ambiente que favorece o crescimento da frustração política e do azedume. Nestas circunstâncias, os movimentos capazes de politizar a insatisfação e a raiva da população contra a política tradicional têm campo para progressos consideráveis. Não surpreende, por conseguinte, que os partidos nacionalistas de direita avancem em países como a Hungria, a Áustria, a França, a Polónia ou os Países Baixos. É o cinismo da elite europeia que provoca o apoio a esses partidos.