À primeira vista, um grevista grego, francês e italiano não têm nada em comum. Um irrita-se com a perda de poder de compra, o outro quer conservar o direito de parar de trabalhar aos 60 anos e o terceiro teme pelo seu emprego. E no entanto, os manifestantes dos diferentes países têm algo em comum: o sentimento de que devem pagar a fatura da crise financeira.

Os países europeus abrem alas para anunciar planos de rigor. Em vários deles, fala-se de congelamento de salários, aumento da idade de reforma, redução das prestações sociais e flexibilidade dos procedimentos de despedimento. Há muitas greves, mas de momento, com poucos resultados. “Ainda é demasiado cedo para ações duras”, explica Ton Wilthagen, especialista em Mercado de Trabalho na Universidade de Tilburg. Com exceção da Grécia e da Espanha, não se sabe ainda o que a crise orçamental vai significar para os assalariados. “Não seria muito inteligente fazer greve de antemão.”

As greves são moderadas para não se abrir a porta aos partidos de direita

“Além disso, em países como a Espanha, Portugal e a Grécia, o temor de uma falência nacional desempenha um papel importante. Consequentemente, os trabalhadores estão pouco dispostos a iniciar uma ação contra as medidas governamentais”, explica Anton Hemerijck, professor de Análise de Políticas Institucionais na Universidade Livre de Amesterdão. Acrescenta-se a isso o facto de estarem no poder governos de esquerda, na Grécia e Espanha. “Não querem aumentar o risco de um regresso ao poder dos partidos de direita nas próximas eleições.” Podem mudar de opinião? “Num movimento de pânico, o Norte da Europa pode adotar uma política de austeridade tal que deixaria de haver perspetivas de crescimento. Os países meridionais dependem do Norte para a sua recuperação económica. Nessa hipótese, estaríamos a viver a calma que antecede a tempestade.”

Esta opinião não é partilhada pela holandesa Catelene Passchier, membro da direção da Confederação Europeia dos Sindicatos (CES). Para ela, o europeu médio não vai aceitar as medidas. “Tem o sentimento de que está a pagar pelos bancos.” Se os governos continuarem a ignorar este sentimento, prevê “um outono bastante mais quente”.

Romke van der Veen, professor de Sociologia da Universidade de Roterdão, reconhece, contudo, a mão de Bruxelas na atitude moderada dos sindicatos do Sul da Europa. “Há dez anos que a União Europeia tenta adaptar melhor a sua política aos parceiros sociais. Durante muito tempo, no Sul da Europa, havia o hábito de fazer greve primeiro e a concertação depois.” Os países meridionais estão ainda longe de ter uma cultura de concertação como a dos Países Baixos. Basta ver as manifestações sangrentas na Grécia, no início de maio.

O assalariado espanhol sente as medidas de Madrid, não as de Atenas

Segundo Catelene Passchier, “os sindicatos devem colaborar, na Europa, fazer uma frente comum e ser solidários”. Considera que é necessário insistir, a nível europeu, por uma flexibilização das condições de crédito à Grécia. “As economias fazem-se em detrimento das conquistas sociais e das possibilidades de recuperação económica. Não devemos esquecer que não há assim tanto tempo que aquele país regressou à democracia. É no interesse de todos que essa democracia sobreviva” à crise. Mas como convencer as bases? Um assalariado espanhol sente as medidas de austeridade de Madrid, não as de Atenas. “A maior parte dos sindicatos acaba por optar pelos interesses da sua própria base”, explica o perito em greves Sjaak van der Velden. Os sindicatos anunciaram uma jornada de ação europeia para 29 de setembro. Não se sabe ainda em que consistirá. “O verão é má altura para fazer greves”, lembra Van der Velden. “A calma atual não tem, pois, valor como prognóstico.”

Anton Hemerijck pensa que os sindicatos podem, em teoria, paralisar a Europa. Mas considera que o risco de isso acontecer não é grande. “Não será nunca tão violento como nos anos 1980, quando os mineiros britânicos se defrontaram com a primeira-ministra Thatcher. Nessa época, o movimento sindical era ainda um verdadeiro movimento de classe.” Mas alerta os políticos. “Se os sindicatos dos serviços e da indústria agirem realmente em conjunto, isso pode gerar um grande caos. Teoricamente, não é inconcebível que alguns países do Sul da Europa e o euro se deem mal.”