“Os europeus são preguiçosos? Ou são os norte-americanos que são loucos?” Eis o título de um artigo de opinião do Banco Central de Inglaterra de 2006. O texto resumia perfeitamente a ideia de que os europeus trabalham em geral menos do que os norte-americanos, têm mais férias, estão mais frequentemente de baixa por doença e entram mais cedo na reforma.

Para saber quem é realmente preguiçoso ou louco, é necessário primeiro responder a outra pergunta: porque trabalhamos? O economista Thorstein Veblen respondeu a esta pergunta em 1899, na sua obra clássica e sarcástica “A teoria da classe do lazer” [The Theory of the Leisure Class]. As pessoas não trabalham apenas para sobreviver, mas também para manifestar o seu estatuto social, entregando-se “ao consumo ostensivo” [“conspicuous consumption”] de bens socialmente reconhecíveis, como vestuário e casas.

A ideia que é cultivada dos dois lados do oceano é a de que a Europa renunciou a esse irracionalismo: na Europa, as pessoas divertem-se enquanto nos Estados Unidos dão duro no trabalho. Inúmeras estatísticas apoiam esta ideia. De acordo com a OCDE, um norte-americano trabalha em média 25 horas por semana, contra apenas 17 horas e pouco para os belgas, os franceses e os italianos. Os holandeses, os italianos e os alemães têm duas vezes mais férias por ano do que os norte-americanos. Destes, 43% entre os 60 e os 65 anos trabalham, o que só acontece a apenas 12% dos belgas, franceses e italianos, e por aí fora. Evidentemente, isso gera piadas e críticas dos dois lados do oceano. E, evidentemente, ninguém melhor colocado para criticar a preguiça dos europeus de maneira veemente do que um britânico expatriado nos Estados Unidos, como o historiador Niall Ferguson, no seu ensaio “The Atheist Sloth Ethic, Or Why Europeans Don’t Believe in Work” [A ética ateia da preguiça, ou porque os europeus não acreditam no trabalho].

Poucos analistas sérios utilizam o termo "preguiça"

O que é mais surpreendente é que poucos analistas sérios utilizam o termo “preguiça”. A razão é simples. A preguiça europeia parece uma explicação atraente para as diferenças observadas, mas as estatísticas dizem-nos outra coisa. “O facto de os europeus trabalharem menos não está ligado a preguiça, mas a uma troca voluntária”, de acordo com Andrew Moravcsik, politólogo em Princeton e colaborador da Newsweek. A taxa de atividade nos Estados Unidos enviesa as estatísticas. Os Estados Unidos têm tido níveis de desemprego mais baixos que a Europa, nos últimos dez anos, e menos inativos. É, pois, lógico que “a média europeia” dê menos horas.

De acordo com Moravcsik, “os europeus são até capazes de trabalhar mais, mas preferem passar mais tempo livre a troco de dinheiro. Os economistas dizem que esta troca é mais frequente quando se enriquece. Os norte-americanos são a exceção a esta regra. Os Estados Unidos são o único país desenvolvido e industrializado onde o tempo de trabalho aumentou imensamente”.

****O europeu preguiçoso é um personagem fictício****

O europeu preguiçoso sobrevive na imaginação; na verdade, é um personagem fictício. Poder-se-ia dizer o mesmo da imagem venenosa e demagógica que os meios de Comunicação Social e a classe política da Europa Ocidental tem andado a divulgar nos últimos tempos: o europeu do Sul é preguiçoso. Aquilo de que os norte-americanos acusam os europeus ocidentais é idêntico ao que estes acusam os europeus do Sul. Mas não têm nenhum fundamento: os espanhóis, os italianos e os portugueses estão em atividade muito mais horas do que os holandeses. O problema da Europa do Sul não são os ativos, mas o elevado número de inativos.

“Na Europa, faz-se endossar os custos dos tempos livres de uns sobre os outros. Por exemplo reclamando, em nome da justiça social, reformas antecipadas para as quais não contribuíram. É um absurdo”, considera Simon Tilford, economista na empresa de análise Centre for European Reform. “A longo prazo, o modelo europeu de troca de dinheiro por tempo livre está ameaçado. Essa troca tem de ser apoiada por uma fonte estável de crescimento económico, que hoje não se verifica. Durante muito tempo, a produtividade europeia aumentou. Quando isso foi lentamente acabando, alguns países financiaram o seu crescimento com empréstimos, outros aumentaram as exportações. Mas trata-se de formas de gerar crescimento em detrimento de outras pessoas, não representam uma verdadeira solução para a Europa. Os governos também não estimulam o crescimento: estão todos a fazer economias. A solução deve vir da produtividade. Se os europeus conseguirem aumentar a produtividade, poderão continuar a cultivar o seu amor pelo tempo livre”, acrescenta Tilford.