Um jovem desempregado de longa duração em Nápoles, uma mãe adolescente em Sachsen-Anhalt, um caso de abandono escolar em Lelystad e outro de depressão numa casa em Vilnius: tudo jovens vulneráveis afastados do mercado de trabalho. Devido à crise económica prolongada, acabam cada vez mais arredados do meio laboral europeu.

“Os dados sobre o crescente desemprego de jovens são chocantes. Mas nos cálculos, geralmente só são contabilizados os jovens que estão aptos e que querem trabalhar. Ora, há também um enorme grupo dos que estão tão desmotivados que nem se aproximam do mercado de trabalho”, afirma, por telefone, Massimiliano Mascherini, da European Foundation for the Improvement of Living and Working Conditions, uma organização europeia [para a melhoria das condições de vida e de trabalho]. Estuda os jovens que não estão nem a trabalhar, nem a estudar nem em formação [em inglês, a partir de 1999, passaram a ser designados por “neet”, acrónimo de “Not in Education, Employment, or Training”, o que proporciona um trocadilho comum com “need”, necessidade]. Analisou a origem e o comportamento desses “trabalhadores de sofá” e quanto custam à Europa.

Os resultados são preocupantes. Catorze milhões de jovens europeus estão sentados em casa sem fazer nada. Isso representa 15,4% dos jovens dos 15 aos 29 anos. Alguns estão desempregados por opção ou andam a viajar, mas não é a maioria. “Não acreditam nas instituições e na humanidade que os rodeia. São pessoas social e politicamente isoladas. Têm, pois, uma maior possibilidade de acabar envolvidos em círculos criminosos”, considera Mascherini.

Deficiências e situações familiares conturbadas

Bruxelas está a acompanhar atentamente as questões relacionadas com os jovens em situações de ócio permanente; com preocupação, porque saem muito caras. Mascherini calcula que o desemprego juvenil tenha custado aos Estados-membros 153 mil milhões em 2011, quando esse valor era de apenas 119 mil milhões em 2008. E são estimativas muito por baixo, pois incluem apenas o valor dos apoios sociais, não quantificando custos com criminalidade e saúde [nem valores contributivos em situações de emprego].

Ton Eimers, diretor do Knowledge Centre for Professional Education and the Labour Market (KBA) conhece bem os problemas deste grupo. “São muitas vezes jovens com deficiências, problemas de aprendizagem e/ou situações familiares conturbadas.” O sociólogo, a trabalhar na cidade de Nijmegen (Holanda), elogia o estudo. “Descreve o abandono escolar no secundário e o desemprego como expressões do mesmo problema: jovens que correm o risco de perder a sua ligação com a sociedade. Em tempo de crise, aumentam os problemas neste grupo.”

Ressalta que os jovens de diversas regiões da Europa respondem à situação de forma diferente. Nos países anglo-saxões e na Europa Central e Oriental, tornam-se passivos. Estão desapontados com a sociedade e as instituições e têm a convicção de que ninguém os quer ajudar. Em resposta, afastam-se da sociedade. Consideram a política pouco importante e um grande número não vota. Sentados diante do televisor, socialmente isolados e em solidão são as suas atitudes características.

Juventude politicamente ativa

Por outro lado, nos países mediterrânicos, a categoria em causa é politicamente ativa. “Há uma boa razão para os jovens saírem para a rua, em Espanha e na Grécia”, diz Mascherini. “Não sentem os seus interesses representados pelos políticos e protestam contra isso. Tendem a resvalar para o radicalismo. Se um bloco extremista surge nesses países, há um grande risco de que encontre um grande apoio entre esses jovens.”

Embora a Espanha seja sempre mencionada como o país com o maior desemprego, a situação em Itália e na Bulgária é muito preocupante, diz Mascherini. “Os espanhóis têm uma formação escolar relativamente boa e muita experiência de trabalho. O desemprego juvenil é uma consequência direta da crise. Os problemas na Bulgária e Itália são de natureza mais estrutural. A educação e a formação não respondem às exigências do mercado. Em Itália, os jovens ficam em casa sem fazer nada durante anos, o que torna a situação mais premente.”

Eimers prefere explicar a diferença entre insatisfação passiva e ativa de uma forma diferente. “Julgo que a frustração tem mais probabilidade de se transformar em raiva no Sul da Europa porque os números são maiores. Se, de repente, em Nijmegen, nos víssemos a braços com uma taxa de desemprego entre os jovens de 40%, a juventude daqui também faria barricadas. Tratando-se de um pequeno grupo, é mais provável que se fechem em casa, envergonhados da sua situação.”

Segundo o estudo, a única região da Europa onde os jovens desempregados não vão desembocar em violência é a Escandinávia. “Nesses países, todos os jovens estão igualmente envolvidos na sociedade e na política, desempregados ou não, tendo abandonado a escola ou não”, diz Mascherini. “Países como a Suécia e a Dinamarca mantêm bons resultados. Não há um distanciamento significativo entre a formação e o mercado de trabalho. O contraste com a Bulgária e a Itália não podia ser maior.”

Tráfico de droga e mães adolescentes

E a Holanda? Mascherini acredita tratar-se de um país exemplar. “Poucos problemas estruturais, muitos projetos e boa supervisão, apesar de o número de casos problemáticos estar a aumentar devido à crise.”

Hennie van Meerkerk acha que esta imagem é demasiado cor-de-rosa. É presidente da direção da Scalda, uma escola de formação profissional na Zeeland, destinada a antigos alunos do secundário que abandonaram os estudos e estão desempregados. Descreve uma nova categoria de jovens com múltiplos problemas: “Muitos sofrem de problemas psicológicos, de depressão, e acabam muitas vezes a entrar em situações de polícia.”

A criminalidade é uma preocupação justificada, segundo Mascherini. O seu estudo revela que esses jovens são suscetíveis de cair na droga ou no álcool. “Isso pode ser tanto causa de abandono da escola e desemprego, como resultado de abandono da escola ou desemprego. Jovens que ficam ociosamente em casa por um longo período de tempo, muitas vezes entram em depressão e são levados a dependências de álcool e drogas. Através dessa dependência, muitos acabam envolvidos no tráfico de droga. As raparigas tornam-se frequentemente mães adolescentes.”

Van Meerkerk avança: “Não há praticamente vagas para empregos permanentes. São precisamente os jovens que não se sabem expressar bem ou que tiveram antecedentes problemáticos que mais sofrem.” Eimers confirma: “O valor pode não ser tão elevado como em Espanha ou Itália, mas o núcleo duro dos jovens problemáticos holandeses está a crescer como resultado da crise; e podem prever-se os problemas que terão no trabalho, quando ainda frequentam a escola. Devia haver melhor cooperação entre as autoridades locais, os organismos de apoio social e as organizações responsáveis pela escolaridade obrigatória. Não se pode esperar até que a situação descambe.”