É verão e os britânicos apreciadores de produtos do mar estão a beneficiar da abundância de cavalas: grelhadas, fumadas ou estufadas em cidra são um petisco sazonal e sustentável, com o qual podemos deleitar-nos sem problemas de consciência. Mas o Reino Unido e a UE estão agora à beira de uma guerra da cavala, que parece uma repetição das guerras do bacalhau dos anos 1970, com a Islândia e as Ilhas Faroé, que ignoraram as quotas acordadas, atribuindo unilateralmente a si próprias a parte do leão das populações de cavalas do Atlântico Norte.

Entretanto, os representantes do setor afirmam que o conflito põe em risco não apenas o futuro da indústria das pescas britânica mas também o futuro da cavala como produto alimentar sustentável. Na semana passada, 50 pescadores escoceses impediram que o navio Jupiter, das Ilhas Faroé, descarregasse, no porto de Peterhead, 1 100 toneladas de peixe, destinadas a uma empresa transformadora. E agora, um deputado europeu escocês pede o levantamento de sanções contra a Islândia e as Ilhas Faroé, arquipélago situado entre o Reino Unido e a Islândia e que é uma província autónoma da Dinamarca.

Rotulando-os de "invasores vikings dos tempos modernos", Struan Stevenson, vice-presidente do Comité das Pescas do Parlamento Europeu, diz que só a ameaça de sanções pode levar os dois países a ceder. "Devíamos ameaçar fechar todos os portos da UE aos navios da Islândia e das Ilhas Faroé, bloquear todas as importações desses países e mostrar-lhes que estamos a falar a sério", disse.

No entender de Stevenson, este problema deveria igualmente ser uma questão central nas negociações de adesão. "Temos aqui um país que se senta à mesa das negociações para ser membro da UE. E o que é que esse país nos deu? Uma nuvem vulcânica e problemas financeiros, devidos à sua recusa de pagar o que deve ao Reino Unido. E, agora, agem desta maneira extremamente agressiva no que se refere às populações de peixes. Aquilo que eles estão a fazer é de facto pesca ilegal, não declarada e não regulamentada."

Parte do problema parece ter origem nas alterações climáticas: as cavalas procuram as águas mais frias do norte. Ao ver tamanha abundância, a Islândia, que tem falta de recursos financeiros, aumentou a quota acordada de duas mil toneladas para 130 mil toneladas. As Ilhas Faroé, que, juntamente com a UE e a Noruega, são signatárias do Acordo de Águas Costeiras, fizeram o mesmo, aumentando arbitrariamente a sua quota de 25 mil para 85 mil toneladas.

O WWF [World-Wide Fund for Nature, Fundo Mundial para a Natureza] afirma que, se for mantida a quota conjunta de cavala de 2010, isso terá por resultado este peixe ser explorado 35% acima da recomendação científica estabelecida pelo Conselho Internacional de Exploração do Mar, o que constitui uma "sentença de morte" para as populações.

Ian Gatt, líder da Scottish Pelagic Fishermen's Association, considera que o que está a acontecer coloca em risco o futuro do setor, que, no ano passado, movimentou 135 milhões de libras (164 mil milhões de euros). Se não for alcançado um acordo, a quota escocesa sofrerá uma redução para metade.

A Noruega tomou medidas imediatas, fechando os seus portos aos arrastões dos dois países. Mas a UE, que manifestou a sua preocupação, ainda não decidiu agir, para grande desapontamento do setor das pescas.

A Islândia é um país que só há pouco tempo se dedica seriamente à pesca da cavala. Tal como as Ilhas Faroé, construiu uma frota dispendiosa para a pesca do verdinho mas as populações deste peixe entraram em colapso.

"E ali estão eles, com aqueles barcos modernos e novos", comentou Ernie Simpson, de 63 anos, capitão reformado e proprietário, em sociedade com o seu filho, Allan, do Christina S, registado em Fraserburgh. "Alguns deles são barcos melhores e maiores do que aqueles que nós tempos. Mas não há verdinhos para eles pescarem. Por isso, estão a voltar-se para a cavala."

A Islândia acredita que a sua posição se justifica. A Federação dos Proprietários de Navios de Pesca da Islândia disse que os seus membros têm "todo o direito de pescar dentro das águas territoriais islandesas".

Entretanto, o Governo escocês aliou-se aos noruegueses no apelo para que a UE pressione mais fortemente os dois países. Contudo, Stevenson pensa que será difícil moderar a intransigência dos pescadores islandeses, que têm ainda vivas na memória as guerras do bacalhau dos anos 1950 e 1970, em que os arrastões islandeses cortaram as redes dos rivais britânicos, obrigando à intervenção da Marinha Real Britânica.

"Celebram a ideia de que ganharam a guerra do bacalhau, ao ponto de a canhoneira que abriu de facto fogo contra um navio da Marinha britânica ser agora um restaurante conhecido no porto de Reiquiavique. Pensam que podem repetir a proeza", disse. "Mas deviam refletir melhor. Porque, desta vez, não têm só de enfrentar o Reino Unido. Vão enfrentar toda a UE e a Noruega, um país vizinho."