Para um forasteiro aqui, em Bruxelas, a posição da Grã-Bretanha em relação à Europa é absolutamente incompreensível. Goste-se ou não, a União Europeia é o maior mercado do mundo. Do mesmo modo, o processo de unificação garantiu, pela primeira vez na história do nosso continente, que a guerra seja apenas uma memória distante e não uma perspetiva sombria de futuro.

Tome-se qualquer das questões que realmente importam para o conturbado mundo de hoje, da proteção ambiental aos direitos humanos, da democracia à paz, e constata-se que a Europa é líder mundial e uma força importante.

Oportunidades perdidas

O Reino Unido podia ter um papel de liderança no processo de reforma e reforço da UE, com possibilidade de assumir mesmo o papel principal. Há várias razões para isso. Antes de mais, podia capitalizar as suas estreitas relações com todos os países da Europa de Leste, visto ter sido o principal defensor do processo de alargamento, o que os novos Estados-membros não esquecem.

Em segundo lugar, a Grã-Bretanha podia arranjar fortes aliados entre as economias abertas da Escandinávia, tradicionalmente pró-mercado. Além disso, a chamada "capital da Europa" tornou-se anglófona, com os diplomatas e jornalistas franceses a queixarem-se de que a sua língua foi completamente marginalizada em Bruxelas. Paris tem problemas estruturais e de competitividade, e é muito provável que a influência francesa na Europa vá diminuir com o tempo.

Finalmente, por razões históricas, os povos da Europa têm uma aversão natural à dominação alemã, pelo que Berlim tem hesitado em assumir um papel hegemónico na Europa. Fazendo as contas, constata-se que a balança do poder em Bruxelas podia facilmente pender a favor de Londres. Na verdade, a médio prazo, a Grã-Bretanha podia mesmo disputar o lugar da Alemanha como "primeiro entre iguais" na Europa.

Crescente irrelevância

Mas, com os conservadores no poder, o Reino Unido já desistiu dessa perspetiva, quase como se este gigante económico e político não estivesse ao seu alcance. Independentemente do que o primeiro-ministro David Cameron vá dizer no seu discurso sobre a Europa, nesta sexta-feira, a triste verdade é que, para os diplomatas, lobistas e comunicação social em Bruxelas, o Reino Unido não só não procurou tirar partido do seu potencial, como já assumiu um "estatuto de observador" na União Europeia.

Muitos jornalistas europeus já nem se preocupam com os “briefings” britânicos antes das cimeiras da UE, porque a voz do Reino Unido é aí raramente ouvida. Segundo alguns diplomatas, Cameron manifesta um ar "entediado" (!) nas reuniões com os dirigentes do maior bloco económico do mundo. Os países da chamada "White Commonwealth” [países da Commonwealth de domínio branco] (Canadá, Austrália, Nova Zelândia) já não confiam no Reino Unido para defender os seus interesses na Europa, porque a influência política do Reino Unido tem vindo a diminuir a uma velocidade que ninguém antevia possível.

Mais preocupantes ainda são os dados do departamento de Recursos Humanos da União Europeia: nos últimos quatro anos, o número de tecnocratas e executivos britânicos promovidos a altos cargos europeus caiu quase a zero. Segundo alguns relatos, o número de novos recrutas provenientes do Reino Unido nas instituições europeias diminuiu cerca de 60% e é agora quase igual ao número de cidadãos da Estónia. O Reino Unido já fez tantas recusas e pediu tantas exceções que, em breve, ninguém em Bruxelas se Cameron tem toda a razão em dizer que, se o Reino Unido sair da UE, não entra em colapso.

Continuará a ser uma grande economia. Mas em comparação com os gigantes do Oriente, os Estados Unidos e a Zona Euro, será relegada para a "segunda divisão" das potências económicas. É verdade que ainda continuará a ser uma potência nuclear – a par do Paquistão. Continuará a ter uma relação especial com os Estados Unidos; mas Washington já deixou claro que quer que o seu aliado mais próximo tenha uma palavra a dizer em Bruxelas. Continuará a ter aliados na Commonwealth: mas, para essas nações, o Reino Unido vai ter muito menos utilidade diplomática fora da União.

Segunda divisão

Percebo que os britânicos são ilhéus e têm uma maneira de ser especial. Mas, ao contrário dos mitos e mentiras descaradas de uma parte da imprensa britânica, a União Europeia nunca lhes exigiu que passassem a conduzir à direita, a beber aos litros em vez de aos pintos, a trocar os seus “pubs” por “bistrots” ou a medir as distâncias em quilómetros em vez de milhas. O Reino Unido é profundamente europeu no que realmente importa – o seu respeito pelo Estado de direito, pela democracia e pelos direitos inalienáveis ​que definem a dignidade humana.

O futuro da Grã-Bretanha na Europa vai, naturalmente, ser decidido pelo seu povo e pelo seu governo. Mas como vivi, estudei e trabalhei nesse país durante seis anos, passei a gostar dele como uma segunda pátria. E sinto-me obrigado a dizer que os Conservadores de bastidores estão a empurrá-la para um monumental erro diplomático e político, de proporções inimagináveis. A Europa também tem muito a perder, pois sem a Grã-Bretanha vai tornar-se ainda mais burocrática, autocentrada e rígida.

O meu apartamento em Atenas ficava junto do cemitério dos Aliados. Todos os dias, ao olhar pela janela, lembrava-me que, quando a escuridão se abateu sobre o nosso continente, o Reino Unido defendeu-a com grandes sacrifícios. Hoje, tem a possibilidade de desbravar caminho rumo a uma Europa mais dinâmica, transparente, próspera e responsável, num mundo onde o equilíbrio de poder está a resvalar rapidamente para Leste. As futuras gerações nunca perdoarão aos que ignoraram a voz da lógica e, em vez disso, conduziram o seu país para a irrelevância. vai importar se fica ou sai

A sua obsessão com a "repatriação" de poderes da Europa é igualmente incompreensível, dado que a maioria dos temas que hoje assumem maior importância – do cibercrime ao comércio – exigem uma abordagem regional ou global, e o Estado-nação tradicional assume uma estrutura paroquial para os enfrentar.

Atualizado a 17 de janeiro, às 21h: David Cameron cancelou o seu discurso previsto para sexta-feira, 18 de janeiro, por causa da crise dos reféns no Sul da Argélia. – Presseurop