A globalização transforma-nos inevitavelmente. Mas não transforma as nossas leis etnonacionalistas e a defesa com unhas e dentes da identidade lituana começa a ser prejudicial. “Ouvimos canções inglesas, vemos filmes russos e comemos salsichas à moda soviética. Vivemos em Londres ou na Noruega e adaptamo-nos a esses locais sem grandes problemas. Há pouco tempo o Presidente, o presidente do Parlamento e os ministros das Finanças e da Defesa eram mulheres. Agora a equipa governamental inclui polacos [da Lituânia]. Viktor Uspaskich [chefe do Partido do Trabalho, membro da coligação governamental] é russo, mas inclui-se desde há muitos anos entre os políticos mais populares”.

Com esta enumeração, Vladas Gaidyz, diretor do centro de estudos de mercado e de opinião pública Vilmorus, pretende provar que temos as características de uma sociedade moderna, com todas as suas vantagens e inconvenientes. “Uma parte da elite lituana diz horrores acerca da perda de identidade. Do mesmo modo que, antes da adesão à União Europeia, brandia as ameaças da imigração, da droga e da homossexualidade, apenas para facilitar a tarefa de não debater a maneira de criar uma sociedade lituana moderna. Mas, ao contrário dos políticos, a sociedade não é afetada por tais temores. Portanto, é preciso distinguir dois discursos – o da sociedade e o da elite – e deve sublinhar-se que o primeiro evolui e o segundo não”, sugere Vladas Gaidys.

Por uma “evolução harmoniosa”

A jornalista Edita Mildazyte recorda até que ponto os hábitos relacionados com o vestuário mudaram desde a independência. Dantes, usar meias brancos com um fato era o que de melhor havia para os homens. Há 20 anos ninguém sabia o que era carpaccio e a maior parte das pessoas nunca tinha visto bananas. “Não chegamos aos três milhões, ou seja, apenas um bairro de Moscovo, Istambul ou Nova Iorque. Continua a ser necessário defender os nossos interesses, a nossa cidadania, as nossas ambições nacionais e de identidade, mas as mudanças são tão grandes que, mantermo-nos agarrados à Constituição redigida entre as duas guerras, a base da [Constituição] atual, está longe de ser adequado”, diz Edita Mildazyte.

O historiador Alvydas Nikzentaitis está convencido de que “o que é preciso proteger não é a identidade lituana mas a evolução harmoniosa dessa identidade”. Sublinha que os fenómenos associados à globalização, as migrações, os casamentos com estrangeiros, o nascimento de filhos no estrangeiro fazem agora parte do quotidiano dos lituanos. “Inevitavelmente, estas mudanças terão consequências muito concretas, por exemplo sobre a lei da nacionalidade. Como devemos comportar-nos com os filhos de lituanos nascidos no Reino Unido, quando, ao atingirem a maioridade, estes tiverem de escolher uma nacionalidade, ou com os cônjuges estrangeiros de lituanos, que queiram passar a ser cidadãos lituanos? Como escrever os seus apelidos? Porque é evidente que inclusão de letras não lituanas nos passaportes não diz apenas respeito aos apelidos dos polacos da Lituânia, constituindo igualmente um problema para os lituanos que casaram com estrangeiros”, sublinha este historiador.

Infelizmente, parece que estas questões constituem fonte de tensões. O exemplo mais recente associado à preservação do rigor da lei da cidadania é o caso de Deividas Stagniunas, décimo terceiro patinador artístico mundial. Pela segunda vez, o Estado recusou-lhe a possibilidade contribuir para dar a conhecer o seu país, ao não conceder a nacionalidade lituana à sua segunda parceira americana.

Tornar a Lituânia atraente

Se quiséssemos ser patriotas consequentes, teríamos de nos virar contra a campeã olímpica Ruta Meilutyte, conhecida como “a jovem de ouro”, que tanto orgulho trouxe à Lituânia, uma vez que nada em águas não lituanas e que o seu treinador não é lituano.

Continuando na senda da ironia, poder-se-ia afirmar que rejeitar os estrangeiros que tentam dar a conhecer a Lituânia faz parte da mais pura tradição local. Por mais de uma vez, o deputado europeu e filósofo Leonidas Donskis manifestou o seu espanto perante o facto de a Lituânia não reconhecer os litvaks [judeus lituanos] como parte dos seus, quando foram estes os primeiros a inscrever a Lituânia no mapa cultural mundial, no século XX, à semelhança dos pintores Marc Chagall ou Chaïm Soutine. “Se não quisermos perder alguns compatriotas, temos de ganhar esta guerra. O nosso Estado é pequeno e devemos torná-lo atrativo para os nossos, mas não só para eles. A dupla cidadania seria uma vantagem concorrencial”, considera o etnólogo Vytis Ciubrinskas.

“A balança tem sempre dois pratos”

A rigidez da lei da cidadania destina-se sobretudo a proteger os bens lituanos, porque se receia que os antigos habitantes da Lituânia de outra nacionalidade, em especial os judeus, venham reclamar os seus bens. Trata-se de um segredo de Polichinelo.

Há defensores do etnonacionalismo, como Tomas Baranauskas, mestre de conferências sobre História. “O fundo do problema da dupla nacionalidade dos imigrantes não reside na lei lituana da cidadania, mas no facto de alguém querer passar a ser cidadão lituano sem renunciar à sua outra nacionalidade. Mas a nacionalidade é um compromisso para com um Estado. Podem surgir conflitos. Nesse caso, a que país provar a lealdade?”, pergunta.

Caímos num grande exagero”, declara o conhecido músico Andrius Mamontovas. “Todos os imigrantes que quisessem adquirir a dupla nacionalidade deveriam poder obtê-la. Ver indicações em lituano na Polónia é uma coisa que me reconforta. Não devíamos nunca esquecer que as balanças têm dois pratos”.