Quando quis comprar a maior transportadora aérea portuguesa, TAP, o milionário sul-americano e proprietário da companhia área Avianca, German Efromovich, deparou com um obstáculo aparentemente insuperável: a legislação da UE não permite que um investidor não europeu compre mais de 49% das ações de uma companhia aérea europeia. Um obstáculo que o empresário torneou rapidamente, anunciando aos atónitos jornalistas presentes numa conferência de imprensa, em Lisboa: "Requeri a nacionalidade polaca, a que tenho direito porque os meus pais eram ambos polacos." De facto, Efromovich recebeu o passaporte polaco pouco tempo depois, em 5 de dezembro de 2012.

O empresário, natural da Bolívia, afirma ter orgulho nas suas origens polacas. Nasceu em La Paz, numa família de judeus polacos que abandonaram a Polónia logo a seguir ao fim da Segunda Guerra Mundial. Até agora, a nacionalidade polaca não lhe serviu de muito, uma vez que o Governo português cancelou a venda da TAP, afirmando que Efromovich não apresentara garantias financeiras suficientes. O que não altera o facto de os polacos terem mais um compatriota, que já provocou mexidas na lista dos polacos mais ricos, na qual, com os seus 3,5 mil milhões de zlotis [perto de €900 milhões], ocupa agora o quinto lugar.

Com a águia ao peito

O jogador de voleibol Yuri Gladir, que há quatro anos faz parte da Zaksy, a equipa de Kędzierzyn-Koźle, pode não ser tão rico como Efromovich mas é sem dúvida mais forte que ele em matéria de desporto. Originário de Poltava, na Ucrânia, Gladir vive na Polónia com a mulher, Marina, e a filha, Daria, nascida na Polónia. Só agora recebeu o passaporte polaco. O seu sonho é jogar na equipa nacional. "Jogar com a águia branca sobre o peito é o sonho de qualquer jogador de voleibol, porque a equipa polaca é uma das melhores classificadas do mundo", explica.

Mas é no futebol que os polacos por opção têm conquistado maior publicidade. Alguns nomes bem conhecidos abrilhantam os clubes do campeonato e salvam a equipa nacional. "Adoro a Polónia e os polacos. Gostava de me tornar cidadão deste país, onde vivi tantos belos momentos", declarou o jogador brasileiro do Legia (Legia Warszawa, o clube da capital), Roger Guerreiro. O seu pedido de nacionalidade poderá ser acelerado pelo facto de a equipa nacional precisar urgentemente de um jogador para o meio campo ofensivo.

Desde o ano passado, a nacionalidade polaca pode ser obtida mais rápida e facilmente junto das representações regionais do Governo central. Também pode ser concedida por decisão discricionária do Presidente da Polónia. De facto, no ano passado, Bronisław Komorowski concedeu-a a 2500 estrangeiros. Contudo, a maior parte dos pedidos continua a ser apresentada às administrações regionais. No ano passado, a província de Mazovia, por exemplo, recebeu cerca de 500 pedidos, em comparação com apenas 107, em 2008. Antes da adesão da Polónia à UE, em 2004, tais pedidos eram raros.

Simpática e atrativa

Por que motivo há cada vez mais estrangeiros interessados em obter a nacionalidade polaca? Segundo, Henry Mmereole, natural da Nigéria e que gere três farmácias em Varsóvia, os estrangeiros instalam-se na Polónia porque o país se encontra em rápido desenvolvimento e as pessoas com talento e dinâmicas podem subir depressa na escala social. É sem dúvida possível ir mais longe aqui do que nos países onde a hierarquia social se encontra estabelecida há muito. O clima continua a ser a principal desvantagem, mas as pessoas habituam-se, diz otimisticamente Mmereole.

Com cada vez maior frequência, às razões económicas ou familiares vem juntar-se um novo elemento: a Polónia é um país simpático, onde é agradável viver. "O ambiente é bom e as pessoas são amigáveis. Há pouco tempo, o meu tio e a minha tia, que vieram da Grécia, foram passear pela Trakt Krolewski (via real) de Varsóvia e ficaram maravilhados com o local. A Polónia devia promover a sua cultura. A produção teatral e o desporto são excecionais. É sobretudo através destes domínios que os países se tornam conhecidos", explica o músico Milo Kurtis, cofundador do agrupamento Maanam, atualmente membro do Drum Freaks, que recentemente requereu a nacionalidade polaca.

Nascido em 1951, em Zgorzelec, na fronteira entre a Polónia e a Alemanha, filho de refugiados gregos (cerca de 15 mil fixaram-se na Polónia por alturas de 1949), Kurtis decidiu que, já que pensava como polaco e tencionava passar o resto da sua vida na Polónia, mais valia requerer a nacionalidade polaca. Seria mais honesto e mais cómodo. De certo modo, Kurtis já é polaco e ama o país, mas, diz, continuará a ser sempre grego, porque os gregos são "como os judeus: é o sangue que decide e não o local de nascimento". Conta que, nos anos de 1980, lhe ofereceram a nacionalidade alemã, mas que recusou, depois de o sogro lhe ter dito: "Tu é que decides, mas fica sabendo que não queremos um alemão na família."

O Vietname da Europa

Entretanto, sem o mínimo de propaganda, tem entrado na Polónia um número elevado de estrangeiros, em busca de uma boa formação ou de uma vida melhor. Mas só uma pequena percentagem deseja pedir o passaporte polaco. Alguns milhares de pedidos por ano não é muito, tendo em conta o número de imigrantes – legais ou não – a viver no país, e que foi estimado em entre 500 mil e um milhão. Mas a verdade é que o fluxo de entradas está só no começo.

Muitos vietnamitas escolheram a Polónia como destino. "Os pais de muitos de nós estudaram aqui nos anos de 1960 e 1970, falam polaco e transmitem uma imagem da Polónia de certo modo idealizada como a terra do leite e do mel", diz Karol Hoang, presidente de uma agencia imobiliária e proprietário de uma agência de modelos de Varsóvia. O seu avô foi diplomata na capital polaca. Os imigrantes vietnamitas na Polónia são muitos – entre os 40 e os 50 mil – mas não são eles e sim os ucranianos que constituem o maior grupo. Trabalham na agricultura e na horticultura mas também se especializaram na construção e cuidados a crianças e idosos. Alguns trabalham em supermercados.

"Os ucranianos trabalham durante algum tempo, ganham dinheiro e voltam para o seu país. Os chineses, quando os negócios não correm bem ou quando há uma crise, fazem as malas e vão para outro lado. Mas os vietnamitas vieram para ficar. Estamos a criar raízes aqui, pensamos no que vamos fazer daqui a dez ou vinte anos, pensamos no futuro dos nossos filhos, se eles irão ter uma boa educação e arranjar um bom emprego num banco ou numa empresa", explica Hoang, cuja mulher é polaca e que se sente meio polaco. A sua relação de vinte anos com a Polónia acaba de ser selada com a nacionalidade polaca, recentemente adquirida.

Os jovens vietnamitas integram-se rapidamente e, em muitos casos, veem-se como polacos. Na verdade, a primeira geração de imigrantes queixa-se de que o processo é demasiado rápido, de que os jovens descuram demasiado a relação com o país de origem. No entanto, o problema da identidade é mais profundo que isso. Os asiáticos não têm olhos azuis e cabelo loiro; gostariam de ser polacos mas nem sempre são aceites como tal.

Primeiro deputado polaco negro

Ainda assim, a Polónia percorreu um longo caminho desde finais dos anos de 1990, quando, nos jogos de futebol, os hooligans atiravam bananas ao jogador Emmanuel Olisadebe, natural da Nigéria. Em 2010, John Abraham Godson, também nascido na Nigéria, tornou-se o primeiro deputado polaco negro. Para ele, tudo começou quando um missionário romeno lhe falou daquele país longínquo. Hoje, Godson diz ser de Łódź (a terceira cidade polaca, situada na zona central do país) e que é ali que quer viver e ser enterrado.

Em que momento começa um imigrante a desenvolver uma identidade preponderantemente polaca? Não forçosamente quando recebe o passaporte polaco. Okil Khamidov, realizador da popular série televisiva Świat według Kiepskich (o mundo segundo a família dos ninguém), tajique de nascimento, comenta, com ironia, que no seu caso esse momento ocorreu quando começou a queixar-se sem razão: "Ah, sou polaco", pensou.